Artigo: Uma mulher, uma causa nobre e um exército de "haters"

Como Anita Sarkeesian conseguiu ir além no debate sobre o sexismo nos games, mesmo sob ataques de uma oposição imatura e ignorante

Henrique Sampaio | - Atualizada às

Reprodução
Anita Sarkeesian

Debater o estado da mulher e da figura feminina na indústria e cultura dos videogames, mesmo que construtivamente, é quase sempre motivo de controvérsias. Anita Sarkeesian descobriu isso da pior maneira possível e, atualmente, enfrenta uma legião de opositores que, de alguma forma, se sentem ameaçados e ofendidos por seu próximo trabalho, que ainda sequer existe.

Sarkeesian ganhou atenção com sua série de vídeo Tropes vs. Women, que analisa a imagem da mulher na cultura popular, em filmes e séries de TV, veiculados em seu blog Feminist Frequency. Com uma linguagem acessível e argumentos baseados em teoria de comunicação, antropologia e feminismo, Sarkeesian torna clara a manipulação da imagem feminina nas obras de ficção e entretenimento – até como reflexo do patriarcado, que ainda causa discriminação e desigualdade na sociedade.

Divulgação
Tropes vs Women in Video Games

Ao anunciar um episódio de sua série focado nos videogames, Tropes vs. Women in Video Games, abordando os estereótipos femininos nos jogos, Sarkeesian desencadeou uma onda de ódio tão forte quanto o apoio dos quase 7 mil colaboradores, que contribuíram financeiramente (e voluntariamente) em sua campanha no Kickstarter com mais de US$ 158 mil - muito, muito mais que os US$ 6 mil que ela buscava para financiar seu projeto.

O sucesso de sua campanha parece ter enfurecido ainda mais seus opositores, que a atacaram com comentários ofensivos calcados no ódio, ameaças de morte e estupro, montagens sarcásticas, desenhos de abuso sexual, tentativas de invasão em suas contas em redes sociais e blog e, mais recentemente, até um jogo (publicado no site NewGrounds e retirado do ar no mesmo dia), no qual seu objetivo era desferir pancadas em uma foto do rosto de Sarkeesian, até deformá-lo.

A grande dúvida é: Por quê?

Embora esteja se tornando cada vez mais diversificada, a indústria dos videogames, principalmente seu lado mais tradicional, das grandes produções, ainda é dominada por homens. Isso se torna um problema quando percebemos que a maior parte desses jogos, produzidos por homens, é direcionada para outros homens, alimentando assim um círculo vicioso - o qual é explicado mais a fundo em minha matéria Os motivos e os males do sexismo na indústria de games.

Divulgação
Ivy, de Soul Calibur IV: um par de peitos ambulante

Um dos problemas que nasce deste fenômeno é a hipersexualização e objetificação da mulher, que acaba por perpetuar estereótipos atrasados e preconceituosos em relação à figura feminina. Os clichês que mais se repetem são os da donzela em perigo (a mulher frágil e indefesa, que precisa ser resgatada por um homem forte e corajoso) e o da heroína seminua, que luta com poses sexys enquanto seus peitos sacolejam dentro de um top minúsculo.

Artistas, autores, escritores e designers devem ter total liberdade de criação e expressão, e isso não seria um problema se apenas alguns jogos representassem suas personagens femininas desta forma. Mas quando a maioria falha em retratá-las de forma mais humana e realista, reduzindo-as a bundas e pares de peitos ambulantes (Soul Calibur V), coadjuvantes de menor importância (Gears of War 3), encarando-as como criaturas frágeis e indefesas, que precisam ser salvas pelo herói (Batman: Arkham City) e sujeitando-as às vontades e desejos dos homens (God of WarDuke Nukem Forever), existe uma questão aí a ser discutida.

É isso que Sarkeesian está tentando fazer: mostrar as evidências e as possíveis soluções de um problema real enfrentado pela indústria de games, mas que por falta de diálogo, crítica e debate, ainda persiste. E, convenhamos, se quisermos levar essa linguagem para frente e sermos respeitados como mídia e forma de arte amplamente aceita na sociedade, teremos que resolver essa parada.

Reprodução
Jogo em que você precisava espancar Anita Sarkeesian, já retirado do ar

Mas, novamente. Por quê? Se tal debate só tem a melhorar a maneira como lidamos com gênero e sexualidade nos games, por que tanta resistência? Seria pelo desconforto de ver como ainda somos imaturos e juvenis na maneira como lidamos com tais questões? Seria pelo medo de nunca mais ver uma lutadora gostosinha em um jogo de luta (um pensamento um tanto ingênuo aliás)? Seria pelo fato de que mais pessoas no mundo passariam a compreender melhor a igualdade de direitos e respeitar as diferenças? Estamos falando de política ou videogame?

Sarkeesian foi vítima de um bullying virtual, movido pela intolerância, e promovido por pessoas que se aproveitam do anonimato que a internet pode proporcionar para tentar invalidar uma causa - ou pior: apenas tirar sarro. São pessoas que sequer reconhecem o problema e, assim, tentam banalizá-lo. E, ironicamente, sem saber, são vítimas da própria questão que Sarkeesian está tentando, de maneira justa e correta, debater.

É o que acontece todos os dias com quem tenta mudar uma perspectiva. Medidas para a criminalização da homofobia são rebatidas raivosamente por religiosos, mesmo diante de um número crescente de assassinatos motivados por ódio. Manifestantes líbios e egípcios, insatisfeitos com as situações políticas de seus países, foram duramente reprimidos antes de conseguirem derrubar seus ditadores. Ao fim, estamos falando de aspectos da sociedade, onde os videogames estão inseridos e para os quais não devemos nos alienar, como jogadores, críticos, desenvolvedores e comunidade.

O que os trolls parecem não perceber é que enquanto tentavam calar Sarkeesian, estavam, ao mesmo tempo, ajudando a divulgar sua causa e seu trabalho. Enquanto tentavam abafar sua voz, a fizeram gritar mais alto. O caso foi divulgado por inúmeros veículos, principalmente nos EUA, a arrecadação de recursos para o documentário foi um tremendo sucesso e milhares de pessoas passaram a apoiar a causa e discutir as questões levantadas pela jovem. E, no fim das contas, é isso que importa.

Notícias Relacionadas


    Mais destaques

    Destaques da home iG