Bossa Studios: os brasileiros por trás do premiado estúdio de Londres (parte 1)

Casal carioca quer revolucionar o mercado de jogos sociais sem deixar de lado o espírito dos games para consoles

Henrique Sampaio | - Atualizada às

“Jogos Sociais”. Há alguns anos, esse termo tem sido usado amplamente para designar um tipo de jogo razoavelmente novo, que usa redes sociais como plataforma para permitir uma interação rica, ampla e acessível entre jogadores. Se, em vez disso, você pensou em pessoas que você mal conhece te azucrinando, em cliques que apenas geram mais cliques, em barrinhas de energias que te impedem de continuar jogando quando acabam ou em convites disfarçados de presentinhos, não se preocupe: você não é o único.

Não é preciso de muita experiência com jogos sociais para perceber que eles são muito parecidos uns com os outros. Uma hora com qualquer AlgumaCoisaVille é suficiente para se familiarizar com um padrão que se repete em quase todos os jogos sociais. Um padrão que trata o jogador como cão em adestramento, cujo comportamento é condicionado pela recompensa: libere o cartão de crédito e você terá biscoitinhos imediatamente. Ainda assim, vez ou outra surgem alguns títulos que arriscam fugir desta fórmula tão comum, na tentativa de inovar.

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Roberta Lucca e Henrique Olifiers, co-fundadores da Bossa Studios, após ganharem o BAFTA

É aí que entra a Bossa Studios, que com menos de dois anos de vida, já acumula um prêmio BAFTA de melhor jogo social e outro da revista Develop, que o elegeu neste ano o melhor estúdio do Reino Unido, entre todos os outros lá presentes, de jogos sociais ou não. Coincidentemente, apesar de estarem localizados em Londres, dois de seus fundadores são cariocas da gema - ou, provavelmente, o estúdio não faria referência ao estilo musical que é um dos maiores símbolos do Brasil.

“Bossa Studios veio justamente da Bossa Nova, que revolucionou o jazz no passado”, explica Roberta Lucca, co-fundadora do estúdio. Quando ainda estava no Rio, Lucca trabalhou na Globo, onde ficou responsável pela área de interação em programas como Big Brother e Domingão do Faustão. Foi então que ela conheceu Henrique Olifiers, fundador do antigo site GamesMania, que após reformulações virou LagZero e, há mais de 10 anos, o atual Finalboss. Na Globo, Olifiers cuidava da área responsável pela criação de jogos para o portal e para celulares.

Algum tempo depois, se casaram e se mudaram para a Inglaterra, onde Henrique passou a integrar a equipe da Jagex, produtora do MMO Runescape, por três anos. Já ciente da revolução dos games sociais e com dificuldade para convencer a companhia a se mover nesta direção, partiu para a PlayFish, uma das primeiras companhias a obter um sucesso estrondoso com jogos para Facebook, tal como a Zynga - tanto que, em 2009, foi adquirida pela Electronic Arts e, atualmente, é responsável por The Sims Social e SimCity Social.

Paralelamente, Lucca deixou um mercado superpopular para trabalhar na Vertu, em Londres, a área de luxo da Nokia, onde são vendidos celulares ao equivalente a R$ 10 mil, ou mais. “Tem tudo a ver com você entender o consumidor e sua relação com um produto que está tentando atingir a perfeição”, explica. “Foi uma experiência fantástica, para compreender o que o consumidor procura quando ele está disposto a pagar 5 mil libras por um produto que ele acha que é perfeito para ele”. Indiretamente, Lucca começou a entender melhor a cabeça dos jogadores.

Os primeiros passos

Da vontade de Olifiers de fazer algo diferente e original com a plataforma Facebook, algo que estava se tornando cada vez mais impossível na PlayFish, nasceu a Bossa. Unindo as experiências, o casal brasileiro, em parceria com mais dois sócios, fundaram o estúdio, atualmente localizado numa pequena rua no coração de Londres, com a intenção de fazer o que ninguém mais estava fazendo com os jogos sociais. Enquanto Olifiers, o “gamer-in-chief” da Bossa, cuida da empresa como um todo, supervisionando a área de game design, Lucca cuida de marketing, social media, análises, aquisição, pesquisa, dentre outras coisas. Contando com eles, hoje o estúdo tem 36 pessoas trabalhando internamente, além das terceirizadas, que variam entre 2 e 50 pessoas.

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Karen Teixeira e Rodrigo Monteiro são outros dois brasileiros em uma equipe composta por 36 pessoas de 11 nacionalidades

Além de Lucca e Olifiers, a Bossa conta com mais outros dois brasileiros: Karen Teixeira e Rodrigo Monteiro, que atuam como ilustradora e programador, respectivamente, mas também fazem parte do Miniboss, um pequeno grupo independente de Campinas que lançou neste ano o jogo Out There Somewhere. Segundo Lucca, além dos brasileiros, são 10 nacionalidades compondo uma equipe multiétnica na Bossa.

“Para mim os jogos sociais podem ser os jogos mais bacanas que existem, porque a plataforma multiplayer já está lá, juntamente com todos seus amigos”, diz Olifiers. “Se você colocar um jogo excelente em uma plataforma social, a experiência pode ser muito melhor que qualquer jogo de console, pois você não precisa procurar amigos para jogar - você já os tem ao seu redor. É tudo muito acessível: ninguém precisa ter o mesmo console, não precisam comprar o mesmo jogo e não existem as outras barreiras que você encontra nas outras plataformas.”

Olifiers, porém, tem noção de que sua visão parece romanceada demais perto do que de fato é a maioria dos jogos sociais atualmente. “Eles estão basicamente usando seus amigos como recursos: ‘me dá um presente, me dá uma vaca, me ajude a colher esse negócio’. Não é uma interação realmente multiplayer. E foi aí que surgiu a ideia de criar um estúdio para mudar esse status quo - que é criar jogos realmente sociais (e quando digo sociais, me refiro à multiplayer), que você possa jogar junto de seus amigos, em vez de apenas ficar pedindo coisas para eles.”

"É tudo muito acessível: ninguém precisa ter o mesmo console, não precisam comprar o mesmo jogo e não existem as outras barreiras que você encontra nas outras plataformas."

Lucca adiciona: “Atualmente 400 milhões de pessoas jogam no Facebook, ou seja, metade das pessoas que ‘logam’ todo dia no Facebook, ‘logam’ para jogar. E aí pensamos: ‘Poxa, como é que neste mercado gigantesco de jogos sociais, as pessoas ainda estão jogando... sozinhas?’ Elas estão interagindo de forma muito rala.”

Em setembro de 2011, na véspera do lançamento de seu primeiro jogo, Monstermind, a Bossa foi adquirida pela Shine Group (de propriedade da gigante News Corp), como parte da estratégia do grupo de mídia de expandir seus negócios para além da produção de conteúdo para TV. O resultado disso foi Merlin: The Game, jogo baseado na série britânica da BBC mais popular atualmente no Reino Unido, o qual está em fase de finalização. O lançamento acontece no início de outubro, juntamente com a estreia da quinta temporada da série.


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