Artigo: 15 anos depois, proibição de Carmageddon é apenas um fato risível

Ressurgência da série mostra que jogo original ainda tem fôlego

Henrique Sampaio | - Atualizada às

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Carmageddon

Notícia extraída do Jornal do Commercio, publicada em 10 de março de 1999:

Renan quer vetar brinquedo que estimula a violência

O ministro da Justiça, Renan Calheiros, determinou ao Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC) que seja instaurado processo administrativo para proibir a distribuição e venda do software de entretenimento Carmageddon II, modelo Carpocalypse Now, um CD-Rom que, segundo as autoridades do Governo, estimula a violência entre os jovens. Pelas regras do jogo, vendido a R$ 59 nas lojas eletrônicas e pela Internet, o condutor do veículo virtual faz mais pontos quando causa "grandes estragos", destruindo maior número de trens, aviões e veículos e atropelando pedestres.

O ministro Renan Calheiros, que já havia determinado a suspensão da comercialização da primeira versão do Carmageddon, em novembro de 1997, não gostou de saber que tinha saído a segunda versão do jogo eletrônico. O Carmageddon II foi analisado pelos técnicos do Ministério da Justiça, que consideraram o brinquedo uma ameaça para os adolescentes brasileiros.

"Esmague, amasse, queime, destrua", propagam os distribuidores no formulário que acompanha o game. "É um CD que estimula a violência", observou o ministro. "As empresas deveriam desenvolver produtos que educassem e formassem nossos adolescentes para um trânsito civilizado e não para a barbárie" concluiu. Renan Calheiros disse que os pais deveriam acompanhar os jogos que compram para seus filhos, para evitar "tristes espetáculos de violência".

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Carmageddon

O fato da notícia acima sobre a proibição de Carmageddon em território nacional soar engraçada é um evidente sinal de como os tempos mudaram. Há 15 anos, quando Carmageddon original foi lançado, em 1997, videogame ainda era visto como brinquedo pela sociedade e a internet mal existia no Brasil. Sem provas concretas de que o jogo, de fato, estimulasse a violência ou fosse prejudicial à saúde, como o Ministério da Justiça alegava, o jogo foi censurado, o que, ironicamente, tornou Carmageddon ainda mais popular no Brasil.

Proibido ou não, "Carmageddon II: modelo Carpocalypse Now" era motivo de diversão e risadas das minhas tardes juvenis, na companhia de minha irmã caçula, que na época, não deveria ter mais do que 10 anos. Me lembro de rir compulsivamente das atrocidades cometidas por ela, que gargalhava ao derrubar morro abaixo o corpo desengonçado do boneco poligonal que acabara de atropelar com seu carro danificado, caindo aos pedaços. Desde pequenos jogávamos videogame e, para nós, Carmageddon, tal como Grand Theft Auto (que também causou polêmica, na mesma época), eram apenas isso: jogos engraçados, com os quais passávamos bons momentos juntos, na frente do computador. E, só pra constar: nunca atropelamos ninguém na vida real. Inclusive, sou o típico chato pró-vida que impede os outros de matarem um inseto.

Carmageddon passa por um período de ressurgência: com o desenvolvimento de um novo jogo, Carmageddon: Reincarnation, financiado pelo próprio público através do Kickstarter, o titulo original foi relançado na plataforma GOG e, nesta quarta-feira (17), para o iPhone e iPad. Surpreendentemente, o título resistiu muito bem ao tempo e continua tão bom e divertido quanto era em 1997, quando inovou com suas mecânicas, sistemas de dano e de física - e isso era o que o tornava relevante para os videogames, e não os atropelamentos per se.

Em 1976, um jogo similar causou o mesmo alvoroço nos EUA: Death Race, inspirado pelo filme Death Race 2000, sobre uma distopia futurística cuja diversão das massas era acompanhar um campeonato automobilístico sangrento, no qual ganhava aquele que atropelasse mais pedestres. O jogo, para arcades, colocava o jogador no controle de um objeto abstrato que representava um veículo, tendo que ir de encontro a outros objetos abstratos que representavam pessoas. Após o “atropelamento”, uma cruz surgia no local, indicando a morte do bonequinho.

É compreensível que, em 1976, as pessoas tenham ficado assustadas com a ideia de o jogador ser responsável pela da morte virtual de um ser humano, ainda que representado por blocos rudimentares de pixels brancos. Ninguém sabia o que era, de fato, videogame e qual o impacto que ele poderia trazer à mentalidade das pessoas. Trata-se de um fenômeno de resistência comum na história do surgimento de qualquer mídia, que só se dissipa com seu estabelecimento na sociedade - algo que, quase 40 anos depois, o videogame ainda não conquistou plenamente. Hoje soa ridículo e até engraçado que, um dia, alguém já tenha considerado Death Race ofensivo.

O mesmo parece estar acontecendo com Carmageddon - basta voltar ao começo do texto e perceber como a notícia soa antiquada e risível atualmente. Imagino que alguém muito sensato, durante a época da proibição do jogo, tenha dito “daqui uns 15 anos, vamos olhar para trás e rir de tudo isso”. E, bem, parece que já está acontecendo.

Carmageddon. Foto: ReproduçãoCarmageddon. Foto: ReproduçãoCarmageddon. Foto: ReproduçãoCarmageddon. Foto: ReproduçãoCarmageddon. Foto: ReproduçãoCarmageddon. Foto: ReproduçãoCarmageddon. Foto: Reprodução

Phillip Pullman, autor da série de livros Fronteiras do Universo (His Dark Materials, em inglês, que originou o filme A Bússula de Ouro), ofendeu muitos cristãos com seu livro O Bom Jesus e o Infame Cristo. Em sua defesa, Pullman se refere à sua obra, mas seus argumentos sólidos, baseados na liberdade de expressão, poderiam ser direcionados à qualquer obra, inclusive um jogo como Carmageddon:

“Foi uma coisa chocante e eu sabia que seria chocante, mas ninguém tem o direito de viver sem se chocar, nem o direito de passar sua vida sem ser ofendido. Ninguém é obrigado a ler este livro, ou pegá-lo, ou abri-lo. E se essa pessoa abrir e ler, ela não é obrigada a gostar dele. E se o ler e não gostar, não terá que ficar calado. Você pode escrever para mim, pode reclamar ou escrever à editora, ou escrever aos jornais. Ou escrever seu próprio livro. Você pode fazer tudo isso, mas seus direitos param por aí. Ninguém tem o direito de me impedir de escrever este livro. Ninguém tem o direito de impedir que ele seja publicado, vendido, comprado ou lido.”

O que aconteceu com Carmageddon nos anos 90 é exatamente o que o deputado Protógenes Queirós tentou, sem sucesso, fazer com a comédia Ted recentemente - ou seja, burlar a liberdade de expressão e censurar à revelia, usando como critério apenas uma sensação pessoal de ofensa. Felizmente, não apenas o público atualmente possui mais voz para impedir e rechaçar tais tipos de atitude através da internet, como o próprio Ministério da Justiça está mais preparado para lidar com tais questões. Enfim, aparentemente, progredimos.

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