Por que Grand Theft Auto é um sucesso?

Por Henrique Sampaio | - Atualizada às

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Provavelmente a maior forma de escapismo da atualidade é também uma maneira de olharmos para nós mesmos

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Grand Theft Auto V

Poucas vezes notei tantas pessoas falando sobre videogame ao meu redor. Sejam desconhecidos na rua, no ônibus, trem ou metrô, sejam amigos ou conhecidos de outras áreas além doArena aqui no iG, a impressão que eu tenho é que mais pessoas (a grande maioria delas, se não sua totalidade, homens, vale ressaltar) estão falando sobre videogame, muito mais do que o habitual. Mais especificamente, sobre Grand Theft Auto V, ou apenas GTA V, como ele provavelmente foi mencionado em todas essas conversas alheias que ouvi durante esta semana.

Paralelamente, a Take-Two Interactive, proprietária da Rockstar, produtora de GTA, afirmou que em apenas um dia, arrecadou aproximadamente US$ 800 milhões (em torno de R$ 1,7 bilhão) em vendas do jogo ao redor do mundo, que desbanca o recorde anterior de Call of Duty: Black Ops II, que teve arrecadação de US$ 500 milhões em um único dia - no momento da publicação deste artigo, o GTA V já bateu a marca de US$ 1 bilhão. O lançamento de um novo jogo da série GTA também parece ser um dos poucos momentos, além de casos de assassinato em massa, em que a grande mídia lembra que videogames existem. Basicamente, cada lançamento de um novo GTA é um grande acontecimento e um fenômeno social. Mas por qual razão? Por que GTA é tão popular?

O fato de ter seu nome impregnado por polêmicas é uma das razões óbvias: desde o primeiro título da série, lançado em 1997, o jogo é conhecido por dar ao jogador a possibilidade de cometer inúmeras atrocidades em um ambiente urbano virtual. A vilanização do jogo por parte da mídia acabou sendo o melhor marketing que a série poderia ter obtido, sem o qual, provavelmente, não seria o gigante que é hoje.

Mas há aqui algo além dos holofotes da imprensa. Parece haver um genuíno interesse humano na liberdade de ação (ou, ao menos, na sensação que se tem dela) da simulação da vida urbana e no deboche da sociedade capitalista propostos por GTA. Não trata-se apenas de nos colocar na pele de criminosos em uma cidade viva, uma representação exagerada da sociedade norte-americana, com seus sistemas, ordem, regras e leis, mas também de destacar o lado podre, injusto, vil e egoísta das pessoas que o regem e o habitam.

Somado a isso, o jogo nos dá um poder sobrehumano, o qual podemos usá-lo como bem entendermos dentro de suas bordas de interação, que geralmente não vão muito além das ações físicas. Talvez sem perceber, somos impelidos a usar nosso poder e senso de controle para causar o caos, subverter as regras, destruir a rotina. E fazemos isso pois sabemos que estamos em um ambiente seguro, virtual, livres de consequências reais, dos julgamentos da nossa própria sociedade - ainda que tenhamos consciência dos horrores que estamos causando naquela representação da realidade. No capitalismo corrupto de GTA, somos todos anarquistas.

Grand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto 5. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto 5. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto 5. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto 5. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto 5. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto 5. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto 5. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto 5. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto 5. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto 5. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: DivulgaçãoGrand Theft Auto V. Foto: DivulgaçãoGrand Theft Auto V. Foto: DivulgaçãoGrand Theft Auto V. Foto: DivulgaçãoGrand Theft Auto V. Foto: DivulgaçãoGrand Theft Auto V. Foto: DivulgaçãoGTA V. Foto: Reprodução'GTA V. Foto: Reprodução'Grand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGTA V. Foto: Reprodução'Grand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: ReproduçãoGrand Theft Auto V. Foto: Reprodução

GTA é um escape para impulsos básicos e possivelmente prejudiciais, no qual podemos extravasar sentimentos acumulados em nossa vida regrada, costumeira e repleta de insatisfações e preconceitos. É uma forma de termos nosso dia de fúria sem prejudicar alguém ou comprometer nossa integridade física, moral e psicológica - ou talvez, até mesmo de confrontá-la. É a sensação catártica, de purgação, que nos evita de cometer atos extremos motivados pela revolta, como o caso do professor de história que destruiu produtos em uma loja de construção, em decorrência de um atraso em sua encomenda. E, bem, por alguma razão, isso tudo é muito divertido.

Em Homo Ludens, uma das primeiras obras literárias a investigar a importância cultural dos jogos, escrito em 1938, seu autor Johan Huizinga, classifica o jogo como “um intervalo em nossa vida quotidiana”:

"O caráter especial e excepcional do jogo é ilustrado de maneira flagrante pelo ar de mistério em que frequentemente se envolve. Desde a mais tenra infância, o encanto do jogo é reforçado por se fazer dele um segredo. Isto é, para nós, e não para os outros. O que os outros fazem, 'lá fora', é coisa de momento e não nos importa. Dentro do círculo do jogo, as leis e costumes da vida quotidiana perdem validade. Somos diferentes e fazemos coisas diferentes. Essa supressão temporária do mundo habitual é inteiramente manifesta no mundo infantil, mas não é menos evidente nos grandes jogos rituais dos povos primitivos. Na grande festa de iniciação em que os jovens são aceitos na comunidade dos homens, não são apenas os neófitos que ficam isentos das leis e regras da tribo; há uma trégua geral de todas as querelas e uma suspensão de todos os atos de vingança. Desta suspensão temporária da vida social normal, durante a época dos jogos sagrados, existem também numerosos indícios em civilizações mais evoluídas. Todas as saturnais e costumes carnavalescos são exemplos disso. Ainda recentemente entre nós, em época de costumes locais mais rudes, privilégios de classe mais acentuados e uma polícia mais tolerante, aceitavam-se as orgias dos jovens de classe alta como 'estudantadas'. Estas ainda subsistem nas universidades inglesas, sob o nome de ragging, o qual o Oxford English Dictionary define como 'uma intensa manifestação de comportamento barulhento e desordeiro, levada a cabo num espírito de desrespeito à autoridade e à disciplina'."

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Grand Theft Auto V

O trecho se refere a jogos em geral, em uma época em que jogos eletrônicos estavam longe de existir, mas descreve com precisão o senso de liberdade e transgressão que sentimos em GTA V, no qual, no momento em que estamos jogando, estamos alheios ao mundo - ao menos, o real. E, ali, temos o gostinho de como é ser um criminoso, um assaltante, um traficante, coisas que ninguém simplesmente deseja ou escolhe ser na realidade.

Nesse sentido, o faz de conta de GTA não é muito diferente da brincadeira de polícia e ladrão da criança. Ao representar a maldade, a justiça (ou a falta dela), o perigo e a violência, ela lida com sentimentos negativos intrínsecos a ela e sua espécie, mas ao abordá-los em contextos artificias (a brincadeira, a imitação), suspenso da realidade, ela naturalmente aprende a controlá-los.

No livro inédito no Brasil Grand Theft Childhood: The Surprinsing Truth About Violent Video Games and What Parents Can Do (O Grande Ladrão de Infância: A Surpreendente Verdade Sobre Jogos Violentos e o que os Pais Podem Fazer, em uma tradução livre), os psicólogos Lawrence Kutner e Cheryl K. Olson, co-diretores da Escola Médica de Harvard dizem:

"Explorar, em um contexto seguro e controlado, o que é impossível, muito perigoso ou proibido, é uma ferramenta crucial em aceitar os limites da realidade. Brincar com a raiva é uma maneira valiosa de reduzir seu poder. Ser mau e destrutivo na imaginação é uma compensação vital para a selvageria que todos nós temos que render em nosso caminho para nos tornarmos pessoas boas."

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Se lidar com nossos sentimentos mais negativos em contextos seguros, controlados e artificiais, ainda que calcados na realidade, é algo saudável, e se o espírito lúdico é inato ao ser humano, a ponto de naturalmente buscarmos o jogo, a brincadeira e a representação, principalmente durante a infância, então faz sentido que gostemos tanto de jogar GTA. Inclusive, faz ainda mais sentido que crianças, que não são o público alvo do jogo, que tem classificação indicativa de 18 anos no Brasil, tenham um interesse igualmente grande por ele, uma vez que elas ainda não têm controle total sobre suas emoções e buscam intuitivamente brincadeiras e jogos que as envolvam. Como este garoto francês, que se emociona profundamente ao ganhar uma cópia de GTA V dos pais (um ato questionável, que merece uma discussão própria):

A grande questão é: de que forma GTA V nos faz pensar sobre as atrocidades que cometemos (ou somos impelidos a cometer) dentro do jogo? Seus protagonistas, como diz a crítica do site The Escapist, são moralmente repugnantes, rodeado de pessoas terríveis. Através do humor e da sátira de sua narrativa, o jogo mostra o que há de pior do mundo contemporâneo. Você, definitivamente, não quer viver a vida deprimente de Michael, Franklin ou Trevor fora do jogo e, talvez, esta seja a forma de GTA V de nos mostrar que nada daquilo valha realmente a pena. E se essa mensagem é transmitida ao jogador como consequência para aquele mundo de violência física e psicológica, talvez, ao desligar o videogame, ela sirva de lição para que ele siga em direção contrária a tudo que foi visto ali.

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