Game designer de dia, drag queen à noite: conheça José Henrique, a Amanda Sparks

Por Henrique Sampaio | - Atualizada às

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Criador de Duel Toys, game designer volta à ativa com jogos inspirados por sua persona feminina

Videogames estão deixando de ser “coisa de nerd” para naturalmente se tornarem parte integrante da sociedade contemporânea. A simples constatação de que indivíduos da geração Y, nascidos entre o final dos anos 70 até o início da década de 90, estão próximos dos 30 anos, para mais ou para menos, já diz muita coisa. Crescidos em meio à tecnologia e aos primórdios dos videogames, esses indivíduos hoje economicamente ativos e dotados de um certo grau de maturidade, compõem a primeira geração de pessoas a terem os videogames como parte de uma identidade cultural.

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Criador e criadura: José Henrique e Amanda Sparks

Conforme vão perdendo o status de nicho e deixando de ser o “Clube do Bolinha” que foram durante tanto tempo, excluindo praticamente todos que não fossem homens e heterossexuais, a comunidade de games tem se tornado cada dia mais diversificada e inclusiva. A realização de eventos destinados ao público gay, como o Gaymer X, e jogos que abordam questões de gênero e sexualidade, como Gone Home, são uma prova disso. Assim como Amanda Sparks.

Criação de José Henrique Oliveira, o designer carioca mora na capital de São Paulo desde 2010. Adepto das festas gays das noites paulistanas, a brincadeira de “se montar” com os amigos acabou virando um hobby, dando origem à drag queen Amanda Sparks. Ao lado de Penelopy Jean e Tiffany Bradshaw, as drags formam o Trio Milano, que animam as festas pop da cidade.

Leia a entrevista com o Trio Milano no iGay

O que mais chama atenção nessa história é que, além de drag queen, Oliveira é também game designer. Diferentemente de seus jogos anteriores, os quais assinava como DieFox (uma referência à Metal Gear Solid), em seu novo jogo, um clone de Flappy Bird estrelado por uma drag queen, quem assina a criação é a própria Amanda Sparks, sob a marca AmandaApps. Devido a repercussão que o jogo tem feito, Flappy DragQueen tem sido também uma segunda "saída do armário" para Oliveira, que ainda não tinha revelado sua persona feminina carregada de maquiagem a alguns de seus amigos e familiares.

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Duel Toys 2

Oliveira não esconde sua surpresa com o rebuliço de seu jogo, potencializadao pelo fato de Dong Nguyen, criador de Flappy Bird, ter tirado seu jogo do ar pouco antes do lançamento da versão debochada de Amanda Sparks. Fã do programa de TV RuPaul’s Drag Race, o game designer ficou empolgado quando descobriu que Mystique Summers Madison, uma das participantes da segunda temporada da série, postou nas redes sociais que estava curtindo seu jogo.

Apesar do sucesso considerável para um jogo criado em um único final de semana, Oliveira tem visto seu jogo mais como uma brincadeira do que um negócio lucrativo, ao menos por enquanto. “Se o Flappy DragQueen fizer sucesso no Android eu faço uma versão para iOS. Para isso preciso de uma licença especial, que custa uns R$ 300. Ganho 15 centavos por clique nos banners dentro do jogo. Ganhei até agora US$ 9. Já dá pra comprar um lanche no McDonalds, pelo menos”, brinca.

“Eu não esperava essa repercussão. Eu fiz por que fazia tempo que não lançava um jogo. Tenho aquele problema de todo game designer independente de começar a elaborar e pensar grande demais. Aí eu vou fazendo... levo três, quatro meses e acabo abandonando o projeto. E o Flappy DragQueen fiz num único final de semana. Comecei a fazer de brincadeira durante uma aula na minha pós e terminei no dia seguinte”, contou.

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Duel Toys 2

O curto tempo de desenvolvimento e simplicidade de Flappy DragQueen contrasta diretamente com sua maior criação independente. Oliveira ganhou uma certa admiração internacional ao criar Duel Toys e sua continuação, que são basicamente o paraíso dos crossovers. Os jogos lançados em 2005 e 2010, respectivamente, misturam Pokémon com lutas 2D, duas paixões de Oliveira. No jogo, você é um garoto que coleciona Duel Toys, uma série de bonequinhos baseados em personagens de videogames, quadrinhos, desenhos animados e até ícones pop. Como em Pokémon, você deve colocá-los para lutar contra os bonecos de amigos e rivais. Com os pontos adquiridos durante as lutas, você pode comprar novos bonecos, liberando mais lutadores ao jogo e aumentando sua coleção.

O primeiro jogo, feito em uma época em que "indie" sequer era um termo conhecido nos videogames, já trazia um certo aspecto megalomaníaco: em aproximadamente um ano, Oliveira criou um jogo com com elementos de RPG, modo história e aproximadamente 50 personagens, sendo 23 deles jogáveis. Com Duel Toys 2, o game designer expandiu a ideia original, refez completamente os gráficos e adicionou dezenas de novos personagens. É provavelmente o único jogo do mundo onde você pode ver um trio composto por miniaturas de Michael Jackson, She-Ra e Goku lutar contra Snake, Indiana Jones e Sailor Jupiter sobre uma máquina de fliperama - e isso é somente um exemplo.

Duel Toys 2 pode ser baixado gratuitamente.

Utilizando a mesma engine de Duel Toys 2, Oliveira lançou posteriormente Bullets of a Revolver, que traz em sua base mecânicas de luta, mas intercala o modo campanha com diversos segmentos de perseguição e minigames, desta vez usando apenas personagens originais, criados pelo próprio Oliveira.

Veja imagens de alguns dos jogos produzidos por José Henrique:

Duel Toys 2. Foto: ReproduçãoDuel Toys 2. Foto: ReproduçãoDuel Toys 2. Foto: ReproduçãoDuel Toys 2. Foto: ReproduçãoDuel Toys 2. Foto: ReproduçãoDuel Toys 2. Foto: ReproduçãoDuel Toys 2. Foto: ReproduçãoDuel Toys 2. Foto: ReproduçãoBullets of a Revolver. Foto: ReproduçãoBullets of a Revolver. Foto: ReproduçãoBullets of a Revolver. Foto: ReproduçãoBullets of a Revolver. Foto: ReproduçãoDuel Toys. Foto: ReproduçãoFlappy DragQueen. Foto: ReproduçãoCave Days (apenas Level Design). Foto: Reprodução

Mas o que levou Oliveira a dedicar mais de dois anos criando seus Duel Toys, se eles jamais poderiam ser comercializados, devido questões de direitos autorais? "Eu sempre quis fazer um jogo meu, com meus personagens, minhas regras", explica. "Como eu sempre gostei bastante de jogos de luta, resolvi fazer o Duel Toys pra reunir todos os personagens que eu gostava em um jogo só. Eu sempre soube que nunca poderia vendê-lo, eu fiz só pra causar um buzz mesmo."

Ver gays e drags que jogam videogame deve ser meio "mindblowing" para algumas pessoas

Com o burburinho ao redor de Duel Toys, Oliveira foi contratado pela Insólita Studios, onde trabalhou ao lado de Glauber Kotakio artista responsável pelo adorado Rogue Legacy. Embora não tenha trabalhado no desenvolvimento de Freakscape, que ficou conhecido na época por ser o primeiro jogo brasileiro para o PSP, Oliveira foi level designer em Cave Days, outro jogo relativamente popular da companhia.

Depois de alguns anos afastado do desenvolvimento de games, Flappy DragQueen representa uma volta de Oliveira ao game design, desta vez refletindo uma nova fase de sua vida. "Atualmente trabalho como motion designer. E drag queen. Mas isso não conto como renda, ou até conto, dá uma renda boa, mas é mais um hobby. O hobby que me dá dinheiro, que me faz beber e entrar de graça nas baladas. E o meu objetivo desde o começo era ser fabulosa. Não, mentira, era ter o networking que tenho agora, por que se não fosse isso, eu tivesse lançado o Flappy DragQueen sem ser uma drag, o jogo não teria tido essa repercussão. É muito hype. É um jogo com uma drag queen feito por uma drag queen. Os caras que trabalham com games devem estar com um nó na cabeça."

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Penelopy Jean, Tiffany Bradshaw e Amanda Sparks, que compõem o Trio Milano

Oliveira conta que tem mais ideias de jogos mobile para Amanda Sparks e seu trio, ou simplesmente envolvendo outras personagens drag queens. Em uma delas, os poderes das personagens vem dos saltos que elas usam, numa espécie de Mega Man purpurinado. "Você mata o inimigo e ele deixa cair um salto, que te dá um poder. Aí você pode virar, por exemplo, a drag do gelo, com uma roupa toda azul", conta, empolgado. "Estou com tantas ideias para esse jogo que não consigo começar a fazer. É o tal do feature freak", diz, provavelmente lembrando do tamanho e escopo de seus Duel Toys.

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Amanda Sparks com visual baseado na Poison, de Final Fight e Street Fighter

Assim como seu gosto pela "montação" está sendo refletido em sua produção de games atual, os videogames também fazem parte da personalidade de Amanda Sparks. "Uma vez fui para uma festa com um look baseado na Poison [a personagem transsexual de Final Fight, que ganhou uma ressurgência com sua inclusão em Street Fighter x Tekken]. Aí um garoto chegou em mim e disse: 'não sei se você conhece, mas você parece a Poison'. Quando eu falei que conhecia e jogava, a bicha ficou chocada. Aí, por acaso, estávamos na Blitz Haus, na Rua Augusta, que tem fliperamas, e o desafiei para uma partida de X-Men vs. Street Fighter. Durante as lutas eu jogava o cabelo de um lado para o outro, fazia pose pra foto. Só não ganhei por que não costumo jogar no fliperama."

Ulala, de Space Channel 5, Bayonetta e Cammy, de Street Fighter, são outras personagens que inspiram Amanda, além de serem também alguns de seus jogos favoritos. 

De certa forma, drag queen e cosplayers possuem muito em comum. É tudo sobre assumir uma nova identidade, como explica Oliveira: "A Amanda é uma máscara. Eu chego nos boys que eu nunca chegaria, de jeito nenhum. Eu faço piadas, danço, bato-cabelo. Quando chego em casa, tiro a roupa e deixo a Amanda lá."

Oliveira, inclusive, assume a vontade de fazer cosplay de Poison em um evento de games, apesar do receio da reação do público. "Só para chocar mesmo. Eu seria a Poison de verdade, com um p**** no meio das pernas e diferente das garotinhas que não sabem fazer maquiagem", diz, debochando.

"É uma coisa muito nova. Há algum tempo você jamais veria uma drag que baseasse seus looks em videogames. E as pessoas ainda vêem videogames como coisas de menino. Ver gays e drags que jogam videogame deve ser meio mindblowing para algumas pessoas."

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