Nintendo se recusa a incluir relacionamentos gays em Tomodachi Life

Por Henrique Sampaio | - Atualizada às

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Ao finalmente se posicionar sobre a questão, companhia confunde inclusão e reconhecimento com "comentário social"

Reprodução
Tomodachi Life

Desde que Tomodachi Life foi anunciado para o mercado ocidental, no mês passado, a Nintendo tem sido pressionada a incluir relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo em seu jogo. O título é um simulador de vida, uma espécie de mistura entre The Sims e Animal Crossing, com grande foco em relacionamentos. Porém, ao impedir que avatares do mesmo sexo namorem, casem-se ou tenham filhos, como acontece com avatares do sexo oposto, a Nintendo impede o público homossexual de aproveitar algumas das partes mais interessantes e valiosas da experiência oferecida pelo jogo.

Há algumas semanas a questão ganhou força com o movimento #miiquality, criado por um jovem gay, fã da companhia, que publicou um vídeo explicando a importância do jogo em abranger as possibilidades de relacionamentos aos homossexuais, em vez de limitá-las exclusivamente aos heterossexuais. O que ele não esperava era uma resposta tão insensível de sua companhia de games favorita.

Respondendo a questão para a AP, a Nintendo confunde inclusão e igualidade com "comentário social", e rapidamente dispensa a possibilidade de relacionamentos gays de seu jogo, sem grandes explicações:

"A Nintendo nunca teve a intenção de fazer nenhuma forma de comentário social com o lançamento de Tomodachi Life. As opções de relacionamento no jogo representam um mundo alternativo lúdico em vez de uma simulação da vida real. Esperamos que todos nossos fãs vejam que Tomodachi Life foi criado para ser um jogo peculiar e excêntrico, e que nós absolutamente não estamos tentando fazer nenhum tipo de comentário social.

A possibilidade de relacionamentos de mesmo sexo não era parte do jogo original lançado no Japão e o jogo é criado a partir do mesmo código que foi usado para localiza-lo para outras regiões fora do Japão."

Reprodução
Tomodachi Life

Bem, então é isso: homossexuais, vendam seus consoles e jogos da Nintendo, ela não quer o dinheiro de vocês - embora esteja desesperadamente precisando, com prejuízos pelo terceiro ano consecutivo - perda de US$ 456 milhões só em 2013. Ao dispensar uma tentativa amigável de diálogo e o reconhecimento e validação de um público que sofre com a falta deles, a Nintendo não apenas desonra uma parte de seus próprios fãs (incluindo muitos adultos que a acompanham desde a infância) como se afasta ainda mais da atitude mais aberta e humana adotada pelas concorrentes.

Embora tal validação ainda seja pouca, ela está acontecendo. Além de abraçar todos os públicos com a possibilidade de romances hétero ou homossexuais em jogos como The Sims, Mass Effect e Dragon Age, a EA promove a inclusão social através de debates; The Last of Us, um dos maiores jogos atuais da Sony, foi capaz de apresentar personagens gays com tanta naturalidade que, em vez de chocar, cativou a todos; a Microsoft tem atuado de forma incisiva na contenção de ataques homofóbicos na rede online do Xbox One e Xbox 360.

A Nintendo, por sua vez, parece existir numa bolha, alheia ao mundo: ela nega diálogo com desenvolvedores (como dito neste artigo do Gamasutra) tanto quanto nega diálogo com seu próprio público - e isso é apenas uma das muitas razões para sua atual crise.

Assim, embora resposta da Nintendo sobre a inclusão de relacionamentos gays em Tomodachi Life soe escusa e vazia, ela é previsível, dado seu histórico conservador e as barreiras impostas por ela própria. E, como apontam os números, isso claramente não está funcionando.

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