The Walking Dead Ep. 1: A New Day

Walking Dead é um jogo de zumbis em que os mortos-vivos são relegados a um segundo plano, e isso o torna excelente

Heitor de Paola |

Reprodução
The Walking Dead
Zumbis são legais, mas ficaram cansativos. A última década os trouxe para o mainstream, colocando-os em definitivo na cultura pop. Não há nada de errado com isso; é ótimo que mais pessoas sejam expostas a todo o horror e tensão que zumbis podem causar, sem que para isso tenham que vasculhar locadoras de bairro em busca de VHSs de antigos filmes italianos.

Acontece que, nesse processo, algo foi perdido e zumbis deixaram de ser assustadores. O lado humano foi esquecido, e eles passaram a ser um monstro comum. Festas e caminhadas são feitas em homenagem aos mortos-vivos. Eles se tornaram uma estética, uma marca. Zumbis são como a Hello Kitty .

Em meio à explosão dos cadáveres, The Walking Dead (o quadrinho) chama atenção por conseguir explorar a faceta humana em histórias de zumbis e , por conta disso, torná-los legais novamente. Os mortos-vivos, que com uma simples mordida o adicionam à sua legião, são horripilantes. Porém, é na relação com outras pessoas, naquilo que resta da sociedade, que os problemas maiores surgem, e a natureza de cada pessoa dá as caras.

The Walking Dead Episode 1: A New Day ( PlayStation Network , Xbox Live e PC / Mac ) consegue se apropriar de seu material fonte e fazer justamente isso. Este é um jogo de zumbis no qual a maior parte do tempo estamos conversando com outras pessoas, e não lutando com as criaturas.

O mundo está acabando, a sociedade está em frangalhos e mortos-vivos famintos andam pelas ruas, apenas com o intuito de mastigar a carne de seus ossos. Ainda assim, no meio disso, apesar de me importar imensamente com Lee Everett, o protagonista, era com os outros personagens e o bem-estar deles que a verdadeira preocupação estava – preocupação essa como poucas vezes ocorreu em outros jogos. Ele também suscitou em mim algo que creio ser um sentimento paternal, o que é algo muito estranho de se dizer, e que jamais imaginei poder ocorrer em um videogame. 

Reprodução
The Walking Dead Episode 1: A New Day

Mais Heavy Rain, menos Jurassic Park

Entre os trabalhos da Telltale , Jurassic Park foi aquele em que o estúdio mais se desviou daquilo que, tradicionalmente, compõe um adventure. Enquanto louvável que tenha sido decidido fugir da zona de conforto, o resultado não foi dos melhores. Isso causou certa preocupação quanto a Walking Dead, pois parecia que diversas ideias implementadas no jogo do parque jurássico eram compartilhadas com o título dos zumbis. Essa não é uma afirmação incorreta mas, felizmente, a execução de ambos não poderia estar mais distante.

The Walking Dead é certamente a maior produção da Telltale até hoje. Isso é visto não só nos gráficos – um cel shading com traços e estilo como de um quadrinho – como também nas animações, expressões faciais e ótimas atuações. Não que os atores dos outros jogos da empresa fossem ruins; ninguém seria louco de falar mal de Dominic Armato (a voz de Guybrush Threepwood em The Secret of Monkey Island ) ou de William Kasten (que deu voz a Max, da série Sam & Max ), porém o caso de The Walking Dead é diferente.

Reprodução
The Walking Dead Episode 1: A New Day

Em Monkey Island ou Sam & Max, o único efeito buscado era o cômico, o que fez com que as atuações nesses jogos tivessem de seguir uma constância específica. Já com os mortos-vivos, a gama de situações e, consequentemente, de emoções encontradas é muito maior e, incrivelmente, sempre convincentes. Lee não é um herói, assim como nenhuma das pessoas que ele encontra. Eles estão todos assustados, irritados, frustrados etc, e qualquer uma dessas instâncias é crível. Há apenas um caso de romance que destoa por ser abrupto.

O que ele tem de similar a Jurassic Park – o que, por sua vez, também o torna similar a Heavy Rain – é a maneira com que somos afunilados. Não existem grandes áreas com uma série de objetivos a serem cumpridos, ou muitos itens para serem coletados. A norma são áreas fechadas, nas quais há apenas um alvo a ser seguido. Os vários quick-time-events e as mortes consequentes disso – irritantes em Jurassic Park – ficam de fora, o que torna a experiência mais focada e menos frustrante.

Existem momentos que ações precisam ser tomadas com urgência, às vezes pedindo que movimentemos Lee ao mesmo tempo em que procuramos elementos com os quais interagir pelo cenário. No entanto, eles não se caracterizam como quick-time-events, e possuem nexo com o resto dos acontecimentos. Essas são as horas em que há um perigo iminente e a tensão que os domina. O interessante é que isso ocorre não por um medo de que algo vá acontecer a Lee. A tensão está na preocupação em querer proteger os outros à sua volta – ou, mais especificamente, Clementine – mesmo que isso nos coloque em perigo.

Um jogo que suscita sentimentos paternais

Histórias de zumbi são sem direção. A narrativa mais frequente é uma que acompanha sobreviventes vagando em busca de algo que ofereça segurança, sem um grande objetivo a ser alcançado. Lee encarna bem esse sentimento. Sem entrar em detalhes, basta saber que A New Day tem início com Lee preso, acusado de assassinato. Os detalhes pouco a pouco vão aparecendo, mas, de cara, é possível perceber uma falta de vida no protagonista. O direcionamento do personagem, cuja primeira característica a que somos expostos é uma ausência de intuito, aparece na forma de Clementine, uma garota que, por uma eventualidade, Lee se encarrega de proteger.

É difícil especificar como isso acontece, mas não demora para que a empatia por Clementine surja e cresça enormemente. Ela vira o motivo para que Lee tome atitudes, porque nela há uma razão. Mesmo que esta ainda não seja direcionada, há um objetivo: protegê-la; e The Walking Dead o fará querer se empenhar nisso o máximo que puder.

Reprodução
The Walking Dead Episode 1: A New Day

Não é como se Clementine recebesse uma exposição muito maior do que os outros personagens, ou como se estes fossem rasos e chatos. Há, porém, uma progressão gradual, que aparece tanto aos nossos olhos quanto nos daqueles que encontramos, que colocam Lee no papel de figura paternal da garota. E, por mais estranho que isso soe, trata-se de algo que é sentido pelo jogador.

Isso foi evidente em um momento de perigo. A presença de zumbis não é algo leviano e cautela é a palavra de ordem. No entanto, no segundo que Clementine corria risco, minha única reação foi a de mover o cursor e esmurrar o botão, não importava qual ação fosse executada. A única coisa que importava era garantir que Clementine saísse ilesa – dane-se o que pudesse acontecer com Lee.

Querer proteger outros em jogos não é uma novidade. Ninguém quer que Yorda seja capturada em ICO , porém não apenas por empatia à personagem. O rapto dela resulta em uma falha, o que faz com que, mecanicamente, você seja impelido a se importar com ela. Eu não sei se Clemetine pode morrer – provavelmente não –, mas isso não importa. O que é importante é que The Walking Dead é capaz de, ao que parece, suscitar sentimentos paternais ante a personagem, o que é louvável.

O futuro

Como é praxe da Telltale, The Walking Dead é um jogo episódico. No PlayStation 3 e Xbox 360 os capítulos podem ser adquiridos separadamente, enquanto no PC é preciso comprometer-se à temporada toda.

Esse é o projeto mais bem amarrado da Telltale. Escolhas feitas em um capítulo não influenciam apenas o que ocorre dentro dele, como também aquilo que aparecerá nos episódios subsequentes. Tais escolhas mudarão quais personagens estarão vivos e como eles encaram Lee, o que possibilita The Walking Dead ser jogado e apreciado múltiplas vezes, especialmente quando toda a temporada tiver sido lançada.

O mais interessante é que as decisões não se dividem em espectros óbvios de “bem” e “mal”. São diferentes moralidades e interesses que as regem, o que leva a alguns momentos difíceis. Certas escolhas poderiam levá-lo a parar e ficar incerto sobre qual caminho seguir, não fosse uma barra de tempo que o obriga a tomar um partido rapidamente.

The Walking Dead Episode 1: A New Day é impecável e oferece um espectro emocional – terror, tensão, empatia, dever – como raramente visto. A única dúvida que permanece é sobre seu futuro. Além de histórias de zumbis sempre terem problemas em sua finalização, há a incerteza sobre a qualidade dos episódios seguintes. Mesmo que em algumas plataformas ele possa ser comprado separadamente, um episódio solto não faz muito sentido, sem contar o fato de que ele deixa várias questões no ar.

Como é impossível falar de coisas que ainda não foram lançadas, se você prefere jogar na certeza o melhor a fazer é esperar até que a temporada inteira esteja disponível. Caso você não se importe em fazer uma aposta – porque o formato episódico, em sua estreia, pede parcialmente por uma confiança cega – saiba que, considerando o que foi feito em A New Day, o mínimo que pode ser dito é que o futuro é bastante promissor.

Nota: 5 de 5

    Leia tudo sobre: The Walking Dead Episode 1: A New DayPS3X360PCPSNXbox LiveSteam

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG