Diablo III

Mesmo simplificado e com sistema online imperfeito, RPG de ação retorna triunfante e divertido

Henrique Sampaio |

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Diablo III
Em muitos aspectos a Blizzard se assemelha à Pixar , o estúdio de animação mais aclamado do mundo. Além de acumular sucessos, a Blizzard foi capaz de construir e manter uma imensa legião de fãs ao longo de duas décadas, sempre prezando pela qualidade e, nos últimos anos, inovando na forma como seus jogos são vendidos e distribuídos.

Se World of Warcraft ainda é um sucesso após quase 10 anos de seu lançamento e uma constante referência para o gênero de MMO, é por que a Blizzard desenvolveu um modelo autossustentável ao redor do jogo: uma mistura de um produto de entretenimento social sem prazo de validade e duração com um serviço eficiente e desejado. Diablo III marca não apenas o  aguardado retorno da série, que há mais de uma década passava por um hiato, mas uma tentativa da Blizzard de aproximá-lo do modelo de World of Warcraft, hibridizando jogo e serviço online de uma maneira inédita, ainda que, até o momento, um pouco irritante.

Diablo III é um dos jogos mais polidos e funcionais que jogo há muito tempo. Além da evidente qualidade geral, do belíssimo visual à interface, passando pelas mecânicas e jogabilidade, tudo construído com muito esmero, Diablo III é incrivelmente diversificado dentro das limitações de seu gênero, e acerta em cheio no que se propõe: um RPG de pancadaria divertidíssimo (as vezes até relaxante), dinâmico, acessível e viciante. É como uma máquina quase perfeita, com peças que se encaixam elegantemente e fazem todo o sistema funcionar, sem erros.

A inovadora integração entre o single e o multiplayer, contudo, tem seu preço: quedas e manutenção de servidores, necessidade de conexão permanente com internet (o que significa que você não poderá jogar quando sua rede cair), lags (até mesmo quando se joga sozinho) e telinhas de erros dos mais diversos números. E aí a máquina começa a engasgar.

Viagem à Santuário 

A história se passa 20 anos após os eventos de Diablo II , e, basicamente, se resume em impedir uma nova tentativa dos Senhores do Inferno de dominarem o mundo de Santuário. Personagens antigos retornam, Tristram dá lugar à Nova Tristram (e tantos outros cenários novos e inventivos) e, de repente, você se vê de volta naquele mundo sinistro e envolvente de antigamente, recriado com mais detalhes do que nunca. O universo em si ganha uma nova profundidade, com diálogos incidentais, diários perdidos, personagens com conflitos pessoais (inclusive, seus próprios companions) e eventos paralelos que complementam a história principal.

Antes de mais nada, vamos deixar claro: Diablo III é mais colorido sim, e é lindo. Os cenários deixam de lado a estética fria do 3D pré-renderizado e ganham mais vida com texturas pintadas à mão e uma direção de arte impecável. Cada cenário ganha um tom diferente, que combinado à magnífica trilha sonora, insere o jogador em um mundo delicioso de se explorar e prazeroso de se ver.


A narrativa, que nunca foi exatamente o forte da série, não mudou muito, e continua um pouco “solta” demais. Tenho a impressão que existe uma preocupação maior da Blizzard em desenvolver a mitologia de Diablo e seu universo do que, de fato, contar uma boa história. É difícil se identificar emocionalmente com os personagens ou seu próprio herói (que ao contrário de muitos RPGs, possui voz e personalidade, vale lembrar), talvez até pela distância literal entre eles e o jogador.

O momento em que a mulher do ferreiro é aniquilada na frente dele, que nem mesmo lamenta sua morte ou demonstra qualquer tipo de sentimento no diálogo seguinte, resume bem a falta de emoção da narrativa de Diablo III. Os diálogos são, na maioria das vezes, tediosos, e funcionam mais para contextualizar as ações do jogador e guiá-lo para as próximas missões do que, de fato, desenvolver uma história. 

Eu já ouvi essa voz antes

Talvez essa impressão tenha sido causada pela dublagem em português, que embora seja excelente perto das infames dublagens de Uncharted 3: Drake's Deception e Killzone 3 , da Sony , ainda está longe de ser perfeita. A primeira coisa que você nota é que quase todas as vozes são familiares, o que é uma coisa boa: pelo menos, sabe que se tratam de bons profissionais. Isso não significa, porém, garatia de uma boa dublagem. Às vezes a interpretação é tão inexpressiva que alguns personagens se tornam vazios de emoção.

Mas o pior problema é, sem dúvida, o volume das vozes. Aparentemente, a Blizzard se esqueceu de equalizar a dublagem em português, o que faz com que cada uma tenha um volume diferente, inclusive no mesmo diálogo. Já aconteceu de meu herói berrar algo que doeu no meu ouvido, de tão alto o volume, e o personagem responder tão baixinho que tive que ler a legenda para saber o que ele estava dizendo.

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Evolução natural

Diablo nunca foi atraente pela sua história, e em nenhum momento a experiência pareceu incompleta com a minha falta de interesse nela. Diablo III é, acima de tudo, um conjunto de sistemas muito bem elaborados, que funcionam em plena sintonia com a ação que acontece na tela. Embora se trate de um jogo de pancadaria, envolvendo atacar monstros infinitamente, a ação nunca se desgasta, tantas são as mecânicas que as sustentam. 

Embora atacar signifique, basicamente, clicar desesperadamente sobre os inimigos (ou realizar calmas sequências de cliques consecutivos, mantendo o botão pressionado na maior parte do tempo, o que pode resultar em uma experiência surpreendentemente leve e relaxante), há um número tão grande de habilidades, passíveis de combinações e modificações, que os combates nunca cansam. Adicionalmente, o novo sistema de física torna as coisas mais divertidas, com membros mutilados voando pela tela, inimigo sendo arremessados para todas as direções e destruição generalizada.

Há sempre algo novo para aprender, um item novo para conquistar, uma habilidade nova para desenvolver e inimigos mais difíceis para vencer. Mais do que um jogo para “chegar ao fim”, Diablo III é um jogo sobre adquirir poder. Quanto mais forte você fica, mais forte você quer se tornar, e cada pequena conquista te dá um gás para continuar progredindo, testando e descobrindo, mesmo sabendo que você pode nunca, de fato, alcançar a perfeição. O jogo sustenta esse desejo liberando níveis de dificuldade cada vez mais altos, onde você coloca à prova os limites do seu herói. O cúmulo disso é toda a tensão do modo hardcore, onde seu personagem é eliminado para sempre se derrotado – e isso significa jogar fora todas as horas gastas em seu desenvolvimento. Coisa séria.

Existe um conjunto de sistemas que sustentam essa progressão contínua: além do jogo recompensar o jogador aleatoriamente com itens dos mais variados tipos, valores e atributos, é possível aprimorá-los com gemas, com o joalheiro, ou criar outros totalmente novos, com o ferreiro. Os próprios personagens podem ser aprimorados, para realizar trabalhos cada vez melhores, desde que se pague com o que é pedido. Some aí seus três companions (cada um com um estilo diferente de combate e personalidade) e você tem muitas coisas para evoluir e se preocupar além você mesmo.

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Diablo III
Ainda que tudo funcione muitíssimo bem, estranhei muito o fato de a Blizzard ter simplificado os sistemas de atributos e de habilidades. Não há mais distribuição de pontos e nem árvores de habilidades, como manda a tradição, e tudo agora é feito de forma linear e automática. Bárbaros ganham mais pontos em Força, arcanistas, em Inteligência, caçadores de demônios em Destreza e você não pode fazer nada para mudar isso.

Se por um lado, o jogo te poupa da necessidade de parar para pensar nas implicações de cada ponto distribuído e evita a construção de personagens desbalanceados que simplesmente não funcionam, por outro, você perde aquela sensação de que está moldando um personagem único, somente seu. O mesmo acontece com o destravamento de habilidades, que funciona de forma linear, sem escolhas definitivas. Mesmo as runas, que modificam as habilidades, adicionando novos efeitos e, consequentemente, trazendo vantagens ao jogador, são liberadas automaticamente, conforme o jogador progride. 

Desta forma, tudo pode ser desfeito, alterado e modificado à revelia. Ao mesmo tempo em que o jogo se torna mais maleável, permitindo a combinação de habilidades da maneira que o jogador achar melhor, Diablo III se torna volátil demais. Sabe quando um jogo de luta permite que você configure ataques que normalmente exigem comandos complexos em um único botão? É basicamente isso que a Blizzard fez com seu RPG de ação.

Ainda assim, é divertido testar novas habilidades e ver a diferença de impacto e o efeito nos inúmeros tipos de inimigos. Algumas funcionam em total sintonia com outras, e cabe ao jogador identificar os melhores padrões de interação entre elas. Isso funciona particularmente bem no multiplayer, se os jogadores quiserem de fato criar uma estratégia, combinando efeitos especiais de runas para uma maior eficiência nos ataques.

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Diablo III

"Ajuda eu, ajuda eu"

O sistema online integra o single e o multiplayer (para até quatro jogadores simultâneos) em um mesmo jogo, bastando adicionar e remover amigos instantaneamente em sua partida, com um simples clique do mouse. O mais interessante dessa integração é que, se um amigo quiser entrar em seu jogo apenas para lhe oferecer algum item e chispar, ele pode, tamanha é a praticidade do sistema.

Há uma janela de chat instantâneo prática e pouco invasiva, muito útil para combinar o que for necessário com os amigos ou simplesmente jogar conversa fora. O jogo também te avisa das conquistas alcançadas pelos seus amigos, gerando um espírito de competição, ainda que de forma indireta. Mesmo jogando “sozinho”, Diablo III é uma ótima experiência social.

O sistema traz sim algumas restrições relacionadas ao equilíbrio do sistema, e não exatamente limitações, como a necessidade de todos os jogadores estarem em um mesmo nível de dificuldade para compartilhar uma partida. No mais, o multiplayer funciona tão bem quanto o singleplayer (até porque é, basicamente, o mesmo jogo), dando a cada jogador uma grande independência de navegação pelos mapas. E com a adição de um modo PvP vindo aí, vejo Diablo III se tornando muito mais do que o jogo que é hoje.

É uma pena que, apesar de todas as qualidades de Diablo III, os problemas com servidores incomodem e frustrem, ainda que bem menos que em sua semana de lançamento. Prefiro acreditar que é um mal que vem para o bem: os benefícios da experiência online compensam os problemas. E, para falar a verdade, já quase os esqueci, tamanho meu envolvimento com o jogo.

Nota: 4 de 5

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