Quantum Conundrum
Jogo tem boas ideias, mas o foco em desafios mecânicos e de plataforma, e a falta de charme o impedem de alçar voo
Comparar Quantum Conundrum (PC) com Portal é, estranhamente, a maneira mais justa e injusta de se falar do jogo da Airtight Games.
Ela é uma comparação justa porque Kim Swift, uma das principais mentes por trás de Portal, foi também a designer principal de Quantum Conundrum. Ela é justa porque ambos os jogos são puzzles em primeira pessoa, sem combates, cujos desafios são compostos de acordo com os elementos dispostos pelo ambiente, sendo que muitas vezes são estes que determinam a abrangência de suas habilidades. Por último, a comparação cabe porque a própria estrutura da narrativa e os personagens presentes são extremamente similares – para não dizer que são os mesmos – conduzindo-o por locais desconhecidos, acompanhado de uma figura que não tem afeição por você, mas, relutantemente, às vezes, admite que você conseguiu fazer algo de bom.
Por outro lado, a comparação é um tanto injusta porque, apesar das semelhanças, se você jogar Quantum Conundrum esperando encontrar um novo Portal, irá se decepcionar amargamente.
Dimensões, não portais
Ao adentrar a mansão de seu tio, um cientista gênio que vive de maneira reclusa, um acidente ocorre no experimento mais recente em que ele trabalhava, prendendo-o em um lugar desconhecido. Sem saída, o parente é obrigado a pedir ajuda ao seu sobrinho, que deverá passar por uma série cômodos pela mansão, até religar três gerados que permitirão que o tio seja liberto.
No entanto, navegar pela mansão não é só uma questão de passar por corredores e abrir portas. Para acomodar seus projetos e invenções, seu tio, o Professor Fitz Quadwrangle, alterou a arquitetura do lugar enormemente, tornando cada sala um quebra-cabeças involuntário. Para seguir caminho, Quadwrangle não vê solução além de permitir que seu sobrinho faça uso da IDS, um dispositivo em forma de luva capaz de alterar a dimensão em que nos encontramos, sem que as propriedades do usuário da IDS sejam mudadas no processo. E é assim que os enigmas de Quantum Conundrum são resolvidos.
A IDS, progressivamente, o permite acessar quatro dimensões diferentes, uma de cada vez. São elas a Fluffly Dimension (a dimensão “macia”), a Heavy Dimension (a dimensão pesada), a Slow Motion Dimension (dimensão da “câmera lenta”) e a Reverse Gravity Dimension (dimensão da gravidade revertida). As dimensões são apresentadas gradativamente, o que significa que, quando podem ser usadas juntas, não há nenhuma confusão quanto a sua utilidade. Além disso, são raros os casos em que todas as quatro podem ser alternadas. Mesmos nos estágios finais, o mais comum é que duas ou três delas apareçam em concomitância. Dito isso, os desafios mais interessantes são, sem dúvidas, aqueles que pedem que elas sejam alternadas de maneira ágil e inteligente.
Isso ocorre, por exemplo, da seguinte maneira; na Fluffy Dimension, todos os objetos são leves. Por conta disso, cofres, mesas e sofás, que seriam impossíveis de serem carregados por um garotinho, podem ser levados sem problemas dentro dessa dimensão. Isso pode ser usado na resolução de enigmas simples, como um vidro que precisa, de algum modo, ser quebrado. Uma maneira simples de se conseguir isso é arremessar um cofre com a Fluffy Dimension ativada e, enquanto ele voa, rapidamente retornar à dimensão normal. Isso recuperará a densidade normal do cofre, levando-o a quebrar o vidro em questão.
Porém tudo fica mais interessante quando aquilo que é necessário é arremessar o cofre através de uma passagem fechada, que está cheia de raios laser, que destruirão o cofre quando este for atingido (a insistência no uso de cofres nos exemplo se dá pelo fato do Professor Quadwrangle ter uma estranha predileção pelo objeto, enchendo sua casa com isso).
Para ter sucesso nisso, é preciso entrar na Fluffy, pegar o cofre, arremessá-lo, e entrar imediatamente na Slow Motion, o que fará com que o cofre, em sua densidade normal, voe vagarosamente pelo ar. Isso lhe dará tempo de corrar até um botão, que abrirá a porta que se encontra fechada, por onde o cofre tem que passar. Isso, no entanto, não desliga os lasers. A solução para isso é entrar na dimensão Heavy, que aumentará a densidade de todos os objetos, tornando-os imunes aos danos causados por lasers, permitindo que o cofre, finalmente, chegue aonde você quer que ele vá.
Isso talvez soe complicado, mas saiba que todas as lógicas e funcionamento de suas mecânicas são extremamente bem explicados por Quantum Conundrum. E, quando diversas dimensões tem de ser usadas em conjunto na mesma resolução, o resultado é bastante prazeroso, fazendo com que você se sinta a pessoa mais hábil e inteligente do mundo por ter conseguido ter sucesso naquilo. É só, como dito, uma pena que exemplos como esse não sejam a norma. O comum é que os desafios se foquem no uso de uma única dimensão, ou que sejam segmentados de forma a que elas não precisem ser alteradas para se complementarem, diminuindo um pouco a graça dos desafios.
Braço, e não cabeça
Além disso - e é nesse ponto que Quantum Conundrum mais se afasta de Portal - os puzzles têm uma predileção por dificuldades mecânicas e não de intelecto. Em Portal, se você falha tentando passar de um problema é porque, provavelmente, sua solução está errada. Uma vez que você tem a ideia correta na cabeça, não há empecilhos que o impeçam de fazê-la e seguir em diante. Em Quantum Conundrum, não é incomum que, batendo o olho para os elementos dispostos em uma sala, você saiba imediatamente aquilo que deve fazer para chegar em sua saída. Entretanto, saber o que fazer e consegui-lo são duas coisas diferentes; volta e meia é preciso passar por trechos de plataforma, ou acertar o tempo correto de ativação de mecanismos para passar daquele ponto. Um erro, mesmo que o leve à morte, apenas pedirá que você refaça uma pequena parte de seus passos, mas não deixa de ser um pouco frustrante. Você sabe perfeitamente o que tem que fazer, mas mesmo assim é impedido de continuar, o que parece ir um pouco contra a natureza de um bom puzzle.
Por causa dessa insistência em desafios mecânicos, minhas sessões com Quantum Conundrum não demoravam a ficar um pouco cansativas. Não que o jogo de repente perdesse suas qualidades e se tornasse ruim, mas só de olhar para uma nova sala e pensar em como deveria ajeitar seus objetos, para que então tivesse de executar uma tarefa na qual eu poderia falhar algumas vezes seguidas, me levavam a desligar o jogo e esperar um pouco até ter vontade de retornar a ele. O problema é que, quanto mais jogava, maiores esses intervalos se tornavam, ao ponto de que eu provavelmente não teria retornado se não tivesse de escrever este texto.
Quadwrangle, não GLaDOS
Durante todo o tempo somos acompanhados pela voz de nosso tio, que observa nosso progresso pela mansão. Assim como GLaDOS, ele constantemente critica a performance do sobrinho, relembrando do fardo chato que é recebê-lo em sua casa. Intermitentemente, ele comenta casualmente sobre seus experimentos, como das vezes em que viajou pelo tempo, ou da sua fonte de energia que produz mais do que grandes represas.
Muito do que ele diz é de natureza cômica, assim como os outros elementos encontrados pela mansão, como os livros que parodiam títulos da literatura clássica e os quadros que são alterados de acordo com a dimensão ativada. No entanto, mesmo que esses toques mantenham o clima leve e agradável, há uma ausência de charme nesses aspectos. Não é como se faltasse algo óbvio à apresentação, porém é impossível não perceber a ausência de um elemento quase impossível de ser descrito, cuja presença tornou GLaDOS uma personagem memorável e Quadwrangle alguém que será em breve esquecido.
Por conta disso, somando também as partes de plataformas cansativas e os enigmas que raramente são tão interessantes quanto poderiam ser, Quantum Conundrum está sempre lhe mostrando as possibilidades que ele falha em explorar. Não se trata de maneira alguma de um jogo ruim, mas de um que não se esforça muito em tentar ser excelente - e a distância que precisa ser percorrida para que ele alcance isso fica ainda mais evidente devido aos paralelos óbvios e constantes que ele traça com Portal.
Nota 3/5