Análise - Qasir al-Wasat: A Night in-Between

Melhor jogo brasileiro dos últimos anos (ou, possivelmente, de todos os tempos) é mistura original de Zelda, Metal Gear Solid e Mil e Uma Noites

Henrique Sampaio | - Atualizada às

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Qasir al-Wasat: A Night in-Between

É bem provável que 2012 seja lembrado como o ano em que os jogos independentes despontaram no Brasil. Qasir al-Wasat é o mais novo expoente dessa lista que só vem crescendo, composta por títulos como Out There Somewhere , Oniken , o ainda não lançado Toren e alguns outros. Qasir é também, sem desmerecer os títulos mencionados, o mais autêntico e valioso jogo produzido no Brasil nos últimos anos, tamanha são suas conquistas de gameplay, estéticas, sonoras e narrativas - não é à toa que o título concorre à premiação do festival IndieCade deste ano. Se eu fosse reduzí-lo a poucas palavras, provavelmente eu diria que se trata do casamento entre The Legend of Zelda: A Link to the Past com Metal Gear Solid em uma mesquita síria.

Inspirado pela mitologia e cultura árabes, o jogo leva o nome de um palácio localizado entre dois planos, na Síria do século XII. Você assume o papel de uma criatura esguia de pelagem branca, meio lince, meio rato, meio ganso, que habita um plano paralelo ao do palácio, e que é invocada por um feiticeiro para assassinar três indivíduos dentro de Qasir al-Wasat, tarefa firmada através de um contrato. Ao ser transportada para este plano intermediário, a criatura se torna invisível, como um espírito, ainda que sua presença física continue existindo.

Desta forma, embora você possa passar despercebido entre os guardas e indivíduos que vivem no palácio, andar sobre a água, carregar itens, derramar líquidos em seu corpo ou realizar movimentos abruptos denunciam sua presença, atraindo a atenção dos guardas, que não hesitarão em persegui-lo até eliminá-lo - ou perdê-lo de vista. Um único acerto é suficiente para matar a criatura, resultando em uma tela de “Mission Failed”, em clara alusão a Metal Gear Solid. Apesar de frágil, a criatura é igualmente mortal, capaz de golpear com suas garras afiadas e, inclusive, envenená-los, se você não quiser se manchar com o sangue dos inimigos e revelar sua posição. Neste caso, o único jeito de se livrar das manchas vermelhas é andar sobre um dos espelhos d’água espalhados pelo palácio, o que, consequentemente, também revela sua posição aos inimigos que estiverem por perto.

A ação furtiva combina perfeitamente com o clima de mistério e investigação que acompanha a aventura. O palácio em si é um grande e intrincado enigma: suas inúmeras salas interconectadas, câmaras secretas e portais são como um quebra-cabeça, e progredir no jogo significa coletar peças e, aos poucos, compreender a figura que se forma - e entender o real motivo de seu contrato. A lineariedade dos primeiros momentos de jogo dá lugar a uma navegação cada vez mais aberta e livre, que combinada com os enigmas, passa a exigir do jogador raciocínio lógico, senso de direção apurado e planejamento para solucionar problemas.

Essa experiência está envolta em uma narrativa muito bem elaborada, que dá ao jogador aquela sensação de estar ativamente desvendando uma conspiração. Os curitibanos da Aduge conseguiram criar uma boa sintonia entre gameplay e narrativa, tornando os dois elementos complementares um ao outro. O desenrolar da história acontece de forma orgânica, através de pinturas e ilustrações, leitura de poemas e documentos (alguns bem longos, que exigem uma certa paciência e atenção), escuta de diálogos entre personagens e inimigos e na própria solução dos enigmas. Alguns, inclusive, são minigames de lógica e decodificação à parte (e muito bem elaborados), que ajudam a tornar a experiência mais diversificada.

O nível de detalhamento dos cenários, gráfico e descritivo (a criatura pode analisar quase tudo, em comentários que servem de dica ou, às vezes, de piada, como nos melhores adventures) torna Qasir ainda mais atraente e envolvente, apesar de sua simplicidade. É difícil de imaginar um jogo 2D que tenha representado elementos da cultura e arquitetura árabes com tanto detalhamento e sutileza: almofadas, tapetes, vasos e bandejas de frutas mediterrâneas compõe os suntuosos ambientes do palácio. O jogo transparece a profunda pesquisa realizada pela equipe da Aduge através da iconografia, simbologia, mitologia e dos diferentes padrões geométricos que compõe os cenários de Qasir.

O design de som experimental é outro elemento que se destaca. Há algo de sinistro e, ao mesmo tempo, caricato, quase cômico, em sua atmosfera sonora. Aqui não existe uma trilha musical tradicional, com melodias que determinam o tom de cada momento do jogo. O som é gerado a partir dos movimentos e ações dos próprios personagens em cada ambiente, servindo tanto para a composição sonora de cada situação quanto de feedback ao jogador. Cada personagem emite um som de um instrumento árabe, sincronizado com suas ações. Enquanto ele anda calmamente, você ouve notas leves, em uma certa ordem, ainda que aleatórias. Ao despertar a atenção dos guardas, os movimentos abruptos geram uma profusão de notas caóticas, que intensificam a perseguição.

Apesar no nível elevado de polidez, Qasir não é isento de problemas. Talvez o pior deles, ainda que não afete muito a experiência, é o sistema rígido de comandos, que usa botões “mapeáveis” do controle ou teclas do teclado (bem como em emuladores), o que acaba tornando a utilização da interface confusa e pouco intuitiva, principalmente durante os quebra-cabeças.

A segunda metade do jogo também pode se tornar bastante frustrante, tamanha a amplitude do cenários e a complexidade e proporção de alguns enigmas. Embora seja muito gratificante solucionar os problemas proporcionados por Qasir, existe uma grande chance de você simplesmente travar no meio do caminho, andando a esmo pelos cenários em busca de algum item ou passagem que tenha, por acaso, passado despercebido. Ainda que haja um mapa muito eficiente, que ajuda o jogador a se localizar e descobrir lugares ainda não explorados, é comum simplesmente não saber o que fazer em seguida. E, ao menos por ora, parece não haver soluções na internet.

Esses problemas parecem pequenos perto das inúmeras qualidades de Quasir al-Wasat. A junção de todos seus elementos dão origem a um jogo único, autêntico, belo e intrigante, digno de figurar entre o que já houve de melhor em toda a história da produção nacional de games. Mais do que isso, ele está entre o que há de melhor nos jogos independentes da atualidade, e por isso ele merece atenção.

Nota: 4 de 5

Qasir al-Wasat: A Night in-Between
Desenvolvido e publicado pela Aduge

Disponível para PC e Mac no site oficial , no Desura e no Indievania por US$ 9,95

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