Análise - Journey

Exclusivo para PlayStation 3, título é uma experiência cooperativa emocionante e minimalista

Caio Teixeira |

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Journey

O que é amizade? Como você descobre que é companheiro de alguém? Qual é o momento específico no qual você olha para a pessoa ao seu lado e chama ela de “amigo”? Journey, exclusivo para PlayStation 3, me fez questionar a mim mesmo. Journey é um jogo que me fez chorar.

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Não é fácil explicar o que é Journey, assim como não é fácil explicar profundamente o que é amizade. É lógico, você pode ser reducionista e simplesmente dizer: “amigo é quem está comigo quando eu preciso/precisei”, assim como posso lhe resumir Journey como “um jogo de plataforma cooperativo”. Mas ambas explicações tiram a alma de seus “títulos”.

Ao começar Journey você não sabe de nada. Você está em um deserto, não tem braços e tampouco objetivo. Você enxerga pedregulhos – que parecem ser pedras tumulares – encravadas no chão, na dúvida é melhor ir até elas. Você as ultrapassa e continua, afinal, isso é a única coisa que se pode fazer: caminhar. A cada passo de seu personagem, você sente a areia quente sob seus pés, entre os seus dedos, batendo em suas pernas.

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Você sobe uma duna. Não é difícil, mas não é a mesma coisa que andar em uma planície. E você a desce escorregando. Mais uma duna. Mais um escorrega. Mais túmulos...

Estruturas do que pareciam prédios voltam a aparecer e, entre elas, pedaços de panos que flutuam pelo ar. Ao chegar mais perto, as partes se juntam à sua nuca, formando um pequeno cachecol que brilha. E agora você pode pular.

Mas os pulos não são simples. É um balé com o vento. Você pula, seu poncho – única vestimenta que seu personagem tem – se abre e você plana. Você, assim como com a areia, sente o vento seco do deserto e por alguns segundos tem certeza de que pode voar. E de volta ao chão. Assim, junto de sua falta de objetivo, você rapidamente compreende que voará, mas no momento certo. Você caminha. Mais uma duna. O vento corta e o alaranjado das areias te lembra o mar ao pôr-do-sol.

Amigos

Encontrei meu amigo enquanto descobria maneiras de sustentar o voo. Percebi que ao usar o meu “grito” – que soava mais como um eco profundo – em tapeçarias desgastadas, elas quase tomavam vida e, automaticamente, me davam apoio para novas alturas. Pareciam algas ao vento...

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Eu e meu amigo não estávamos nos entendendo. Ambos estávamos perdidos, sem objetivo concreto. Mostrei a ele – pulando ao redor dos panos e “gritando” até ele entender como dar vida aos tecidos – como “semi-voar”. Mais animado do que eu, saiu atabalhoado, pulando de duna em duna, tentando atingir pontos mais altos das estruturas corroídas pelo tempo enquanto eu o esperava para continuarmos.

Eu não sei porque o esperava. Me parecia bom ter alguém por perto no meio da imensidão laranja que estávamos. O deserto era tão grande e nós tão pequenos. O medo de cair dentro de mim mesmo, de me perder num voo ou em cada passo da duna, era aterrorizante. Ele voltou.

Juntos começamos uma escalada. Uma montanha com seu topo brilhante no horizonte parecia um bom objetivo. Tão bom quanto qualquer outro, mas, aparentemente, nós dois concordamos em ir para lá juntos.

Caminhada

Em um altar abandonado, nosso “grito” despertou algo. Uma visão. A única coisa que ela nos mostrou foi uma porção de hieroglifos que pareciam indicar a vida de uma antiga civilização e sua conexão à montanha que brilhava. A aparição, contudo, passava um ar de melancolia. Éramos parecidos, o ser e

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eu, porém ele era mais alto e alvo, enquanto eu baixo e vermelho.

Meu amigo e eu continuamos nossa viagem, nadando em ondas de areia e flutuando em tapeçarias. Em algum momento os panos realmente tomaram vida e tomaram a forma parecida de uma arraia. E voavam. Ecoavam suavemente à nossa volta e nos davam impulsos a regiões mais altas.

Fomos guiados até chegarmos às portas de uma civilização devastada. Ou esquecida. A visão apareceu outras vezes, contando o passado de seus companheiros e apontando o nosso caminho.

Nossa jornada nos levou ao fundo do mar de areia, onde criaturas de pedra gigantes vigiavam o vazio em busca de qualquer sinal de vida para ser aniquilado.

Olhos brilhantes nos procuraram até encontrar meu amigo. Eu gritei diversas vezes para ele me seguir, mas em um frenesi de corrida e dança aérea, um ataque devastador o fez ser jogado para fora do meu campo de visão. Corri para detrás de uma pilastra para poder procurá-lo melhor. Ali, tentando se levantar da areia, estava ele.

Dançando pelo ar cheguei até o seu lado. Ali percebemos que juntos éramos mais rápidos e nossos pulos tinham maior alcance.

Nevasca

Caminhamos e flutuamos. Nos aproximamos do cume da montanha, mas com ele veio o frio. E no frio perdemos a graciosidade dos movimentos. Nossos pulos encurtaram, nossos corpos afundavam em neve. Nós morreríamos separados um do outro.

Deste ponto em diante passamos a caminhar grudados, tentando trocar calor enquanto continuávamos a caminhar.

Meu amigo. Cada passo uma luta. Ele estava mais fraco, logo eu ia na frente, tentando atrair a atenção dos monstros que ainda nos perseguiam enquanto procurava o melhor caminho para o tirar do vento cortante.

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Ele estava com medo. Nós dois estávamos, mas ele mais, afinal, já havia sido atacado outras vezes e seu cachecol, que representava sua vitalidade, já estava muito mais curto. A cada nova parada para descansarmos, mais ele andava de um lado para o outro, impaciente para sair daquela região desolada.

Em certo momento, ao tentar atrair uma serpente de pedra, não fui rápido o suficiente e fui jogado longe. Ao levantar, me vi sozinho. Corri rapidamente para trás de uma pedra tentando evitar o vento.

Então, de longe veio o “grito” do meu amigo. Ele tentava chamar a atenção dos monstros para si, me dando espaço para poder voltar. Eram três e todos foram juntos contra ele. Meu amigo.

Journey

No fim, a jornada não é tão grande. Mas a bizarrice da falta de comunicação verbal e a semi-ignorância de nosso objetivo criou uma corrente ainda mais estranha.

Você se importa com aquele mundo. Com o que aconteceu com os seres que o habitavam antes de você e o que acontecerá após sua passagem. Você quer ajudar. E você quer caminhar.

Ao finalizar o jogo, pouco antes de começarem os créditos, sobe a expressão: “Thank You for playing Journey (obrigado por jogar Journey)”. A mensagem amistosa não é nem de longe exclusividade do game, mas você sente, eu senti, que cada funcionário da thatgamecompany (desenvolvedora do jogo) realmente o agradeceu por participar daquela experiência.

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Após os créditos, Journey revela os apelidos de PSN das pessoas que te acompanharam durante o jogo. Mas eles não eram os meus companheiros. Eles não estavam comigo quando pulei na frente das serpentes de pedra, tampouco esperaram em uma reentrância para me ajudar a recuperar do frio. Nem indicaram o caminho correto.

Não, quem fez isso foi o meu amigo, com quem caminhei pelo deserto. E com quem devo caminhar novamente. Porque talvez seja isso o significado dos amigos: reais desconhecidos que simplesmente decidiram caminhar com você, seja lá onde isso vai dar.

Nota: 5 de 5

 

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