Out There Somewhere

Indie brasileiro traz mecânicas inteligentes e inovadoras em um ótimo jogo

Heitor de Paola |

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Out There Somewhere

Out There Somewhere não é o primeiro jogo feito no Brasil, porém ainda é difícil que esse fato não chame a atenção. Títulos produzidos em território nacional são incomuns, o que torna natural que fiquemos um pouco surpresos quando isso acontece. E isso, por sua vez, leva muitos ao raciocínio de “é preciso apoiar por se tratar de algo brasileiro”.

Enquanto nobre - e um tanto ingênuo -, fazer isso é diminuir consideravelmente aquilo que foi alcançado pelo estúdio MiniBoss com Out There Somewhere. Ele deve ser louvado por um simples fato, que, em minha opinião, fica à frente de qualquer outro: Out There Somewhere é um jogo muito bom e qualquer coisa além disso não importa.

Uma arma de teletransporte, diferente daquela que você conhece

Tudo começa com um falso início, em um segmento de shoot ‘em up de nave, aos moldes de Life Force, que passa a sensação de ser uma cutucada (bem dada) aos vários estúdios indie que preferem tentar copiar modelos de sucesso ao invés de usarem a criatividade. Ao final dessa cena, após Yuri, o protagonista, perder o controle de sua nave e aterrissar em um planeta inóspito, que Out There Somewhere realmente começa.

Em terra firme somos introduzidos àquilo que define a mecânica de jogo. Apesar de elementos de plataforma estarem presentes, e de ser necessário certos reflexos para que buracos e afins sejam transpostos, em sua essência Out There Somewhere é um puzzle, em que entender o que precisa ser feito, e não o ato fazê-lo, que oferece desafios.

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A mecânica consiste do seguinte: quando um disparo de nossa arma de teletransporte atinge uma parede, somos automaticamente levados para o ponto de impacto do tiro. Assim, caso haja em nossa frente um precipício que não pode ser passado com um pulo, basta atirar em alguma parede que se encontre do outro lado do buraco (desde que haja chão abaixo do lugar que o projétil atingiu), para que o atravessemos.

Isso é apenas o conceito básico, pois a maior parte dos enigmas são solucionados com o uso do movimento que Yuri tinha no momento em que é teletransportado. Se ele estiver no meio de um pulo quando o tiro atinge algo, o protagonista ainda estará no meio do impulso quando aparecer no outro ponto.

A explicação desse funcionamento no jogo é um pouco abrupta, porém não é necessário mais do que alguns minutos para que tudo passe a fazer sentido. Comigo foi um daqueles casos em que, de repente, ocorre um “clique”, e as peças se encaixam. Passa a ser fácil aplicar a ideia de inércia (um objeto em movimento continua em movimento e... Tente lembrar daquela sua aula de física que você ficou “pescando” o tempo inteiro...) que permanece após o teletransporte, e a execução mecânica disso não oferece problemas. Claro, entender os passos necessários para que os enigmas sejam resolvidos ainda apresenta desafio, mas a dificuldade está ali por causa de puzzles inteligentes, e não porque a execução da solução é complicada.

Influências daqui e dali

Esse, na verdade, é o aspecto que Out There Somewhere tem de mais similar com Portal. É verdade que a mecânica de teletransporte parece também criar uma comparação apta, porém, em sentimento, esses jogos não se assemelham. Aquilo que Out There Somewhere tem de parecido com o jogo da Valve é que, se você está tendo problemas na execução mecânica de um desafio (como não conseguir alcançar uma plataforma), é porque provavelmente sua solução está errada. Por causa de seu bom design, você nunca falhará em fazer a coisa correta, pensando com isso que está no caminho errado.

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Aquilo que Out There Somewhere mais me lembrou, não pela jogabilidade, mas por certas questões de estilo, foi VVVVVV. Como no título de Terry Cavanagh, todos os elementos e informações do desafio estão sempre contidos na tela. Você bate o olho e já sabe onde quer chegar e por o quê precisará passar - restando então descobrir como. E, assim como em VVVVVV, é nesse “como” que está a beleza do jogo.

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Out There Somewhere

Mantendo sempre as mesmas mecânicas, do começo ao fim, é o cenário que se altera e oferece novas ferramentas com que trabalharmos. Por conta disso, mesmo que inicialmente opressivo, nunca tive a sensação de que alguma parte não era “passável”. As limitações das capacidades de Yuri eram conhecidas, restando então descobrir quais as características do cenário que são maleáveis, com qual delas é preciso trabalhar para chegar ao fim daquele lugar.

Inimigos para quê?

A única “peça” que não se encaixa no esquema geral de Out There Somewhere são os inimigos. Logo no início, muito antes dos seres nativos do planeta em que estamos serem uma ameaça, obtemos uma arma, que consegue derrotar toda oposição sem nenhum esforço. Isso nulifica qualquer ameaça que venha em nossa direção, o que retira o propósito da presença dos inimigos.

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Out There Somewhere
Não é necessário agir com cuidado perto deles, e raramente é preciso ajustar seu timing de teletransporte de acordo com a movimentação dos monstros. Isso tudo faz com que a presença deles seja fora de lugar e não adicione algo de interessante às mecânicas que por si só sustentariam todo o jogo. O mesmo problema ocorre no confronto com Grigori, o último chefe, em uma luta totalmente desconexa do resto da aventura. A própria arma de teletransporte é usada apenas para podermos desviar de um dos ataques executados pelo chefe. Fora isso, trata-se de uma luta de reflexos e agilidade, e não de inteligência e perspicácia, uma pena.

Apesar disso, a arte e animação dos monstros são detalhadas e bonitas, o que pelo menos os torna sempre bonitos de se ver. Esse é um elogio que pode ser estendido a todo o estilo retrô de Out There Somewhere que, acompanhado de uma ótima trilha sonora, me mantiveram sempre na expectativa por o que de novo estava prestes a ver e ouvir.

Não sou muito fã de falar sobre preços quando estou escrevendo sobre jogos, mas quando eles custam míseros US$ 5 é difícil não usar isso como argumento. Out There Somewhere pode não durar muito (cerca de uma hora, se você não se importa com segredos), mas trata-se de uma daquelas experiências que o deixam satisfeito quando você chega ao fim. Ser mais longo provavelmente diminuiria o aproveitamento tido com o jogo.

Sem querer soar repetitivo, mas, de novo, esqueça que Out There Somewhere é brasileiro. Jogue-o porque seus desafios são bem feitos, porque sua arte é interessante e porque seus puzzles são inteligentes. Jogue-o porque ele é bom, e ponto.

Nota: 4 de 5

 

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