Review: Red Dead Redemption



Renato Bueno
04.06.2010

Fruto de uma das produtoras mais comercial e culturalmente relevantes dos últimos 10 anos (Rockstar Games, da série Grand Theft Auto - GTA), Red Dead Redemption recria o Velho Oeste de 1911 na fronteira norte-americana com o México. É a história de “mocinhos e bandidos” exaustivamente abordada no cinema, mas que ainda era pouco representativa nos jogos eletrônicos. Eu disse “era”.

O que a Rockstar conseguiu em Red Dead Redemption não foi apenas criar personagens marcantes, que deixam saudade. Não foi apenas contar uma história forte ao usar sua fórmula de liberdade + mundo rico + crítica de costumes através da provocação. Ela trouxe o faroeste para um mundo que estava carente de poeira, pontes quebradas, estradas ruins, passagens estreitas. Um mundo que ainda não conhecia a sensação de cruzar quilômetros a cavalo acompanhando um bêbado que promete lhe conseguir uma metralhadora. Ou de passar 14 horas batalhando para salvar sua família, sem nunca ter a certeza de que ela está viva.

Ao levar para o Oeste sua “história padrão” de desajustado em busca de uma vida melhor na América, a Rockstar soube ser autêntica como em seus melhores jogos.

Jogos como Call of Juarez, Gun, Outlaws e até mesmo o “primo distante” Red Dead Revolver, cada um ao seu estilo, arranharam as possibilidades que Red Dead transforma em realidade. Cenários ricos, mundo aberto à exploração, histórias envolventes, uma infinidade de possibilidades. Uma espécie de “GTA do sertão”, ou “Assassin’s Creed rural”, Red Dead é uma grande experiência.

Apesar de parecer uma adaptação automática dos elementos de GTA IV para um outro período histórico, o jogo se dedica a criar um vínculo mais forte com os personagens e a envolver o jogador com uma narrativa mais inteligente. Cortes de câmera, enquadramento, até algumas sutilezas – “detalhes” que dão outro significado aos diálogos e aos momentos de tensão no jogo.

Mundo aberto sem porteiras

Ao abandonar a cidade e ir para o campo, você passa a conviver não só com a poeira e os animais selvagens, mas também consigo mesmo. A solidão é companheira fiel durante grande parte do tempo, principalmente se você decide cruzar as distâncias a cavalo, em vez de recorrer às diligências ou ao recurso de “viagem rápida”.

De madrugada, ao amanhecer, não importa. Você vai cruzar com poucas pessoas no caminho, o que transforma o “desviar de carros em GTA” em “conhecer os cenários, observar o céu, galopar com a trilha sonora – mais tímida e muito menos memorável que as músicas de Outlaws. 

A língua mais falada, dos dois lados da fronteira, é aquela com ênfase na pólvora, acentuada por calibres poderosos e nenhuma piedade. Poupar a vida de inimigos ou contraventores não chega a ser uma opção.

As paisagens vão de planícies desérticas até rios que cortam regiões rochosas, montanhas cobertas por neve e áreas de pastagem que terminam em algum precipício. A fauna, abundante, tem cobras, coelhos, gambás, lobos, coiotes, búfalos, javalis, águias e vários outros animais – todos podem ser abatidos e aproveitados de alguma maneira.

Puerto Cuchillo, Casa Madrugada, Rio Del Lobo, Ridgewood Farm, MacFarlane’s Ranch, Cholla Springs: alguns dos nomes de regiões do mapa que não vão sair da sua cabeça tão cedo (e, como se percebe, os nomes do lado mexicano da fronteira são profundamente mais interessantes).
 
Do tropeço ao galope

Red Dead acontece em 4 etapas distintas, que não estão anunciadas em nenhum lugar, mas que se revelam naturalmente se você chegar ao final do jogo. Cada uma delas tem seu próprio ritmo, seus personagens importantes e, principalmente, um contexto que alia “maneira de jogar” com “significado na história”.

Nas primeiras horas, então, você vai viver uma espécie de tutorial não intensivo. Vai tocar gado, domar cavalos, guiar charrete, patrulhar fazenda com o cachorro. Afinal, você precisa carregar o amplificador hoje se um dia quiser subir no palco para ser o guitarrista.

E em Red Dead, esse show pode demorar. Portanto, aceite uma dica: tenha paciência, aprenda, aproveite os primeiros passos, guarde o dinheiro e os recursos que puder. Aprenda realmente a dominar os complicados cavalos, nas mais diversas situações (corrida, patrulha, tiroteio). Teste as armas até achar suas preferidas. Quando a festa começar, você vai querer estar preparado. 

Enquanto se prepara, você pode ganhar experiência, dinheiro, fama e honra fazendo tarefas paralelas e encarando diversos minigames. Se ajudar um comerciante que teve o cavalo roubado, você ganha fama e alguns dólares. Para a diversão, partidas de pôquer, queda-de-braço, blackjack, lançamento de ferradura e várias outras “opções de lazer”. Duelos, busca por tesouros, caça a criminosos procurados... a lista parece ser infinita.

Você pode, também, conseguir suas próprias histórias para contar nos modos multijogador. Além de modos tradicionais, como “capture a bandeira”, existe a opção de “passeio livre”, onde até 16 jogadores tem o mundo aberto à disposição para “curtirem a vida”.

A coleta de flores e a caça de animais, além de ensinarem bastante a respeito da sobrevivência em terras selvagens, garantem pontos em um ranking de experiência. Depois de matar um lobo, por exemplo, tire sua faca para extrair a carne e a pele, depois venda na próxima vila.

Ex-bandido entre o certo e o errado

Ao contrário de muitos fora-da-lei do Velho Oeste, nosso herói John Marston tem tudo a perder. Sua mulher e seu filho, raptados pelas autoridades de Blackwater, são fantasmas durante boa parte do jogo. Você não os vê, não tem prova de que estão vivos, não tem nem uma foto para saber como eles são. Mas, determinado, você se entrega a cada desconhecido que promete ajuda – em troca de alguma previsível dor de cabeça.

Red Dead Redemption não é amigável e colorido, como poderiam indicar as belas ilustrações de personagens divulgadas no site oficial. É amargo, árido, impiedoso, extenuante em seus momentos finais. Pouca água, pouco verde. Quer salvar sua família? Mas antes me ajude aqui com essas vacas que fugiram no meio da tempestade.

John aceita. Nunca reclama, guarda cicatrizes, mas também não engole desaforos. Cutuca os “parceiros” com uma ironia cínica, ajuda desconhecidos e acaba se transformando em um grande personagem sem que você perceba – como que seguindo a tradição de Niko Bellic em GTA IV.
 
O herói está preso a uma “negociação forçada”. Ou ele entrega seus antigos companheiros de vida bandida, ou os policiais podem não ser generosos com sua família, que já está raptada. E, para chegar até os ex-companheiros, você pode esperar muitos problemas pela frente.

As “mulheres em um mundo de homens” têm papéis importantes no jogo. Bonnie é uma fazendeira determinada e de língua afiada, Luísa é uma camponesa dedicada à causa revolucionária no México. Outras mulheres, porém, ainda sofrem na mão de coronéis e “líderes do povo”.

A arma é a lei

Política, religião, honra? A gente vê por aqui. Da mesma maneira que políticos corruptos e policiais mal intencionados manipulam Marston, Red Dead “brinca” com o jogador, colocando a recompensa final atrás de uma montanha que parece nunca terminar. E, quando termina, você percebe que não estava preparado.

Você começa a sentir falta dos “conhecidos”. Seth, o ladrão de túmulos paranoico, uma espécie de Gollum texano. Reyes, o revolucionário mexicano que chama Luísa, sua “namorada” e maior admiradora, de Laura. Dickens, o vendedor de poções charlatão. “Irlandês”, o irlandês bêbado incorrigível. Professor Harold MacDougal, o antropólogo viciado em cocaína que foi expulso da faculdade. Quer mais? O senhor que pede flores para presentear a mulher no aniversário de 50 anos de casamento. E quando você entra para conhecê-la... ok, vamos parar.

Depois de algum sofrimento, muita ansiedade e passagens intensas, Red Dead diminui o ritmo. Os momentos finais são angustiantes. “É isso?”, “já acabou?”, você se pergunta. De repente, a mesa vira, o jogo acaba. E, quando acaba, você percebe que todos os seus esforços não foram em vão, e que a aventura na fronteira do agora bastante familiar Velho Oeste está, na verdade, mais intensa e verdadeira que nunca.


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