Impressões: Deca Sports Freedom

Renato Bueno
22.07.2010
Era um pequeno passo para um ser humano, mas um salto triplo com chance de recorde sul-americano para quem não compareceu à E3 deste ano. Testar um jogo do Xbox Kinect, novo sistema de controles da Microsoft, sem sair de São Paulo, nem que fosse por alguns poucos minutos? Anote aí nosso nome, RG, CPF e número da conta.
A convite da produtora Hudson, de passagem pelo Brasil, fomos conhecer o Deca Sports Freedom, um dos jogos da safra inicial de lançamentos para o Kinect. Você sabe: uma mistura de Wii Sports com Wii Sports Resort, mas sem usar controles. E com a promessa de movimentos mais precisos e intuitivos graças à invenção que espera revolucionar o futuro dos games.

Dai Kudo, diretor de produtos da Hudson, evitou falar sobre o Kinect e fazer comparações entre jogos e sistemas concorrentes. Segundo ele, era uma grande alegria para a empresa ser a primeira a exibir no Brasil o novo sistema da Microsoft. Foi no Festival do Japão, durante um final de semana em São Paulo, que o público pôde conhecer a nova tecnologia no estande da Hudson. O foco da visita eram os jogos da Hudson, o que deixou as teorias e conspirações sobre o Kinect em décimo terceiro plano durante as conversas.
A versão final de Deca Sports Freedom terá 10 modalidades: snowboard, vôlei de praia, patinação artística, esqui na neve, queimada, paintball, arco-e-flecha, boxe, tênis e kendo (arte marcial japonesa). A versão disponível no teste, porém, é o que a indústria chama de work in progress. O jogo não está finalizado, faltam acertos e sobram alguns bugs de programação. Mas nada que comprometa a experiência, então deixamos a teoria e fomos à prática.
Patinando sem muita classe

Meu desempenho nos esportes virtuais começou com uma vitória sobre os milhares de visitantes da E3 2010, já que eu ia testar uma modalidade inédita para a feira de Los Angeles. Tudo bem, patinação artística não é exatamente a realização de um sonho, principalmente para quem preferia testar o arco-e-flecha, mas é um começo.
A produtora da Hudson faz uma rápida demonstração de como patinar com o Kinect e depois é minha vez. Fico em frente à câmera e ela “varre” meu corpo rapidamente. Agora é só gesticular para comandar o jogo.
Os menus não precisam ser “clicados”. Basta esticar o braço para a frente, levar o cursor sobre um botão e esperar alguns segundos. Um ícone de loading surge na tela e o Kinect entende que você quer selecionar aquela opção.
Meu avatar genérico usa roupas propícias para o esporte, com um colete e babados para celebrar toda a fineza da patinação no gelo. Na vida real, jeans e camiseta, e acho que estou melhor assim.
A corrida tem início. Como a velocidade do patinador é automática, não preciso correr. Enquanto ele patina, posso movimentar os braços e acenar para o público. Um ícone no canto da tela representa meu corpo, refletindo meus movimentos e dando uma referência fundamental nessa nova forma de jogar.
Não existe mais um intermediário entre nós, jogadores, e o jogo. Eu gesticulo, o Kinect interpreta e reproduz na tela. Isso dá uma sensação de liberdade, mas ao mesmo tempo elimina o feedback, o retorno de pressionar um botão, sentir o tremor do controle, girar uma alavanca. Pode ser tudo uma questão de hábito, mas ainda é cedo para saber.
Cada corrida na pista de patinação é composta por uma série de manobras. Ícones espalhados pelo gelo indicam o que fazer: pular, girar o corpo, levantar os braços em uma perna só, entre outras poses.
O desempenho em cada manobra varia do péssimo, quando eu erro o tempo ou a pose, ao excelente, quando acerto a manobra e mantenho a posição por um tempo suficiente. Sendo assim, pular é fácil. Jogar uma perna para trás e os dois braços para cima, porém, já é mais complicado – além de deixar você meio sem graça perante as testemunhas no local.
Pulando, girando e fazendo gestos para um público imaginário, termino minha corrida de forma regular, somando manobras “excelentes” com sequências imperfeitas. A sala de testes do hotel em que estamos é espaçosa e vazia o suficiente para que eu chute, gire e pule sem medo de derrubar um vaso ou acertar a cabeça em algum lustre. O reconhecimento dos movimentos funciona bem, mas as instruções nem sempre são muito claras. Com treino, é claro, as coisas devem melhorar.
Do saibro para o carpete

Dai Kudo, diretor de produtos da Hudson.
O próximo teste é com partidas de tênis, e então Dai Kudo se junta a mim para uma disputa. Ele fica a meu lado e é reconhecido pelo Kinect. Não existem informações oficiais sobre o número máximo de jogadores simultâneos que o sistema suporta, mas sabemos que dois jogadores são aceitos sem problemas.
No tênis, o maior problema deixa de ser a nova tecnologia e passa a ser um eterno dilema dos jogos em tela dividida. Na TV de mais de 30 polegadas, a quadra de tênis dividida ao meio fica extremamente wide (horizontal), dificultando a visão da bola ao cruzar a rede.
Começo sacando, fazendo o movimento de qualquer tenista. Com a mão esquerda, jogo uma bola de tênis imaginária para o alto e uso o braço direito para executar o saque. Em tempo real, o avatar no jogo repete meus movimentos, e em segundos temos uma partida de tênis com dois sujeitos dando raquetadas no ar em uma sala com carpete.
Para caminhar para os lados não preciso “andar” na vida real. Basta inclinar a cabeça, e o jogador entende o sinal. As raquetadas saem precisas na direção, mas com uma potência que ainda é difícil calcular. Outra dificuldade é entender a relação entre a posição do seu corpo real e do avatar virtual.
Acompanhe o raciocínio: você pode, por exemplo, estar no “centro” da TV, mas se inclinar a cabeça para a esquerda, seu personagem vai para o canto da tela. Então você recebe uma bola na quadra e perde a referência: estou no centro ou estou no canto da quadra? Devo bater para dentro ou para fora? Com mais ângulo ou menos ângulo?

Enquanto penso nesses dilemas, Kudo vai acumulando jogadas que não consigo defender e quase quebra meu serviço. Troco lados, perco o ritmo da bola, fico indeciso entre jogadas. Começo usar mais a força e marco pontos, venço um game.
Mais alguns minutos e a partida fica equilibrada. Com 2 games para cada lado, decidimos interromper para não quebrar o recorde de John Isner e Nicolas Mahut.
A partida de tênis trouxe resultados ambíguos. Embora as jogadas sejam precisas, uma partida de dois jogadores pode ficar confusa na tela e na sala de casa. Você vai precisar de um bom espaço e de uma TV grande se quiser viver uma boa experiência com esses jogos de esporte.
Ainda é cedo para avaliar corretamente o Kinect. É uma plataforma em desenvolvimento, e até mesmo seus jogos mais simples ainda não foram finalizados. O que as primeiras experiências mostram é que o sistema abre um novo caminho para interações e possibilidades diferentes nos jogos. Resta esperar que o aprimoramento tecnológico não venha sozinho. O Kinect vai precisar de boas ideias e criatividade para realmente bancar a “revolução” que vem prometendo.
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