El Shaddai: Ascension of the Metatron - Deus, o diabo e boas calças jeans

Divulgação

Douglas Pereira
05.05.2011

Aos poucos, parece que o desenvolvimento japonês de jogos começa a entender o que deve ser feito e entrar nos tempos modernos. Não é preciso tentar agradar só ao público ocidental e falhar miseravelmente, basta tentar fazer games que agradem a qualquer mercado, como era até alguns anos atrás. Alguns games como Catherine e Bayonetta mostram que o talento nunca abandonou o Japão.

Outra dessas promessas é El Shaddai: Ascension of the Metatron, game para PlayStation 3 e Xbox 360 publicado pela Ignition Entertainment, que fez o caminho oposto do atual: é uma produtora ocidental que juntou um time de produção no Japão. O lançamento ainda está um pouco distante, mas fizemos este preview para mostrar as boas ideias que o game está apresentando.

Pré-requisito: aula de mitologia

Já ouviu falar dos Manuscritos do Mar Morto? São escrituras encontradas na década de 40 próximas a – veja só que incrível – o Mar Morto. São pergaminhos contendo passagens de todos os livros do velho testamento da bíblia e muitas passagens “inéditas”. Essas escrituras são divididas entre os textos bíblicos, os apócrifos e o resto.

O que nos interessa aqui são os apócrifos, textos não aceitos como parte da bíblia (que já tinha sido mandada para revisão e até recebido patch muito antes da descoberta) pela religião cristã. Para falar a verdade, a maioria dos textos ali realmente não faz muito sentido quando comparados ao contexto bíblico, mas isso não é uma aula de teologia, então falemos sobre o livro importante dentre eles: os livros de Enoque.

Enoque é citado três vezes na bíblia, e considerado bisavô de Noé, o da arca. O livro dele é uma side-story, um Enoque Gaiden que conta a história dos Observadores, anjos caídos que criaram os Nephilim, e a relação de Deus com Enoque, que foi arrebatado e subiu diretamente aos céus (esta parte do arrebatamento inclusive é citada na bíblia convencional) e lidava diretamente com seu Senhor, aprendendo seus mistérios até se tornar Metatron, o escriba que tomava notas e anunciava as palavras que saem diretamente da boca de Deus.

Uma atualização na história

E para quê falamos tanto disso? Bem, El Shaddai reconta as passagens dos livros de Enoque de um jeito totalmente japonês. O jeito oriental de mexer com mitologias fora de sua área é sempre interessante, e também parece ser o caso aqui. Sabendo do que falamos ali no parágrafo anterior, falemos sobre a história do jogo.

Quando Deus criou o mundo, mandou sete anjos para tomarem conta da Terra, chamados Watchers, também conhecidos como Grigori. Eles faziam o trabalho numa boa, até que Samyaza, o líder, começou a achar as humanas bonitinhas e querer ter relações com elas. Os outros seguem junto e cortam seus laços com Deus, e vão procriar com as humanas. O resultado da fornicação entre anjos e humanos são os Nephilim, seres não muito amistosos e que nem deveriam existir.

Para piorar, os humanos estão se achando e começam a construir a Torre de Babel para alcançar os céus. Deus não está nada contente com toda a situação e decide então apelar: vai destruir tudo na Terra com o dilúvio e recomeçar.

Entra em cena Lucifel, o maior anjo dos Céus. Ele se veste com roupas escuras, tem bom gosto para jeans, além do cabelo arrepiado e um celular, porque aparentemente ele pode viajar no tempo. E sim, ele é Lúcifer, o capeta, que era mesmo o maior anjo de Deus na crença cristã. Ele diz para Deus que talvez não seja necessário destruir tudo: talvez mandar o humano seja suficiente – já que se deve evitar interferência divina na Terra o máximo possível.

Enoch, que já é o escriba, aceita numa boa, afinal, isso significa salvar a Terra da destruição. Assim a saga começa... e ele toma uma surra. De volta ao céu, Lucifel faz sua mágica de voltar no tempo e decide preparar o humano melhor, dando a ele uma armadura e calças jeans. Assim, com a ajuda de Lucifel e a supervisão dos quarto grandes arcanjos (grandes em qualquer sentido), Enoque parte na busca pelos sete Grigori.

Sobre o jogo em si

Mas chega de história! Falemos sobre o jogo em si. Produzido por Sawaki Takeyasu, que foi o diretor de arte de Okami, é o designer de El Saddai, e podemos ver o mesmo gosto por estilos de arte incomuns.

A Igniton Entertainment deu ainda mais liberdade para Takeyasu, que partiu para uma ideia mais abstrata. Como não há uma versão verdadeira da Torre de Babel, por exemplo, ele podia criar o que quiser. Como resultado, cada um dos Grigori tem uma visão diferente do mundo – pois todos acham que fariam um mundo melhor que o de Deus – portanto os ambientes mudarão totalmente várias vezes.

Os contrastes estranhos, tipicamente japoneses, transparecem até no design, como os jeans de Lucifel e Enoch, e na atmosfera do jogo, como o fato do celular de Lucifel às vezes ficar fora da área de cobertura. Mas é esta estranheza que dá um estilo único ao game, tanto em sua história quanto no departamento visual. As muitas partes do jogo com visão 2D são o maior exemplo de que El Shaddai gosta de experimentar várias camadas do design e visual dos games.

Lutando em nome de Deus

O combate à primeira vista não parece nem um pouco profundo. A ideia da equipe de produção era criar um game que usasse apenas quatro botões. Assim, há um botão de pulo, de defesa, de purificação e apenas um de ataque. Quando lembramos que é um game no estilo Devil May Cry, fica a dúvida: como acontecem os combos?

É tudo uma questão de como você aperta esse único botão. Diferentes ritmos produzem diferentes combos, e misturar um aperto rápido com segurar o botão também traz resultados distintos. Dá para ver que não há como o game ter a mesma energia frenética de DMC ou Bayonetta, por isso El Shaddai se concentra mais nos combates individuais para aumentar a dificuldade do game – que, segundo os produtores, se torna bem elevada na segunda metade do jogo.

Seus ataques também variam de acordo com a arma equipada. Não dá para escolher entre armas diferentes, o único jeito é roubá-las dos adversários durante uma luta, após deixá-los atordoados. Mas a parte mais estratégica é a da purificação.

Sua arma vai se tornando laranja conforme você a usa. Quando ela fica totalmente laranja, você ainda causa dano, mas não consegue derrotar nenhum inimigo. A solução é purificá-la, coisa que pode ser feita a qualquer momento com um simples aperto de botão. Porém, fazer isso lhe deixa totalmente exposto a ataques inimigos. Como reverter isso? Ao desarmar inimigos, Enoch automaticamente purifica sua arma. Saber o momento certo de atacar alguém ou purificar entre um ataque e outro será vital, especialmente nos chefes.

Tudo na moda

El Shaddai se tornou um grande meme entre os gamers japoneses na internet, e ninguém sabe explicar exatamente o motivo. Virou uma sensação entre os cosplayers em eventos, ganhou ilustrações e inúmeras montagens engraçadas. Em partes, é tudo uma grande zoeira com o estilo dos personagens e a cara de bobo de Enoch, mas a maioria realmente parecia interessada no jogo.

As coisas foram crescendo e, quando a Ignition fechou um acordo com a marca de roupas Edwin para tornar reais os jeans usados por Enoch e Lucifel, tudo se esgotou em poucas horas! Posteriormente, a linha de calças foi relançada em maior quantidade.

Até mesmo foi inaugurado o “El Shaddai Café” no distrito de Akihabara, e a demo do game teve uma contagem altíssima de downloads. Ao que parece, o jogo chamou muito a atenção de garotas, que acham Lucifel e Enoch os caras mais bonitos dos últimos tempos nos videogames. No evento oficial de lançamento, mais da metade dos presentes eram do sexo feminino. Estranho!


Talvez Lucifel não seja tão confiável, mas certamente tem bom gosto

El Shaddai: Ascension of the Metatron foi lançado no Japão no final de abril, e está marcado para o terceiro trimestre no ocidente. A Ignition promete mostrar mais da conversão e dar todos os detalhes durante a E3, que acontece entre os dias 7 e 9 de junho em Los Angeles. Estaremos lá para conferir e ver se essa boa e diferente ideia tipicamente japonesa dará certo por aqui.

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